A imprensa quis levantar poeira com a foto de Ronaldo Fenômeno fumando dentro de sua casa, na festa que deu para Anderson Silva, lutador do MMA. Ronaldo queixou-se: "Sempre respeitei os fotógrafos e sempre tentei ajudar, só que dessa vez passaram do limite!" E ameaçou processar o fotógrafo. Veja escreveu que Ronaldo fuma desde os tempos do Real Madrid, cerca de dois maços de Marlboro por dia.
É claro que o cigarro não arranhou a imagem do ídolo. Da mesma forma que Ronaldo nunca foi julgado pelo contrato que mantém com a AmBev há mais de dezessete anos, renovado no ano passado até 2020. A imprensa faz estardalhaço porque Ronaldo fuma e não diz nada quando ele promove a venda de cerveja, incitando milhões de jovens a beberem, apesar dos nossos problemas gravíssimos de alcoolismo e de já ocuparmos o primeiro lugar mundial no consumo de álcool.
Somos um país de ética pervertida, de moral frouxa e elástica. Um deputado norte-americano demitiu-se da função, porque mostrou o corpo atlético na internet. Envergonhou-se do que considerou um despudor. No Brasil, ninguém deu a mínima para a nebulosa história de Ronaldo com os três travestis, para as acusações de uso de cocaína e prática de sexo sem preservativo. O Fenômeno queixou-se chorando: "Minha carreira acabou." Acabou nada.
Ronaldo renovou todos os contratos milionários que fazem dele o dono de uma fortuna de um bilhão de reais. Além dos milhões anuais recebidos da Nike, Claro, Vale e Hypermarcas, ele embolsa 2,5 milhões de dólares por ano da AmBev, para aliciar as pessoas a beberem cerveja. Sempre me escandalizava quando o ídolo, muito jovem ainda, levantava um dedo para cima após um gol, marca publicitária da cerveja Brahma, a número 1.
A torcida brasileira estava se lixando para o tabagismo de Ronaldo. Ela queria saber apenas se ele fazia gols, se levava o time para a final dos campeonatos e trazia a vitória. A obesidade de Ronaldo preocupava apenas porque ele não rendia em campo. Mas, se ele chegasse à marca dos 34 gols em 47 jogos, que alcançou no Internazionale de Milão, poderia pesar duzentos quilos. Ninguém se importa que Ronaldo influencie os jovens a beber. Todos acham bacana ele ganhar os anuais dois milhões e meios da AmBev. No Brasil, herói é quem se dá bem e ganha muito dinheiro a qualquer preço. Basta ver a moral do Big Brother.
Devastaram a carreira do nadador norte-americano Michael Phelps, que ganhou oito medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, depois que o flagraram fumando maconha. Seus assessores não conseguiram negociar com o tablóide que a foto não fosse publicada e o caso abafado. É verdade que maconha é uma droga ilícita. O álcool, responsável por acidentes de trânsito, transtornos de comportamento e violência, é lícito e pode-se até fazer propaganda dele, incitando os jovens a beber.
O jogador Edmundo Animal envolveu-se em acidente de carro com vítimas e estava bêbado. Deputados envolvem-se em acidentes de carro com vítimas, estando bêbados. E o que acontece? Nada. A justiça continua cega? Que mal o tabagismo de Ronaldo faz às pessoas, se ele não fuma em lugares públicos e faz questão de não ser visto fumando?
O tabagismo de Ronaldo só faz mal a ele mesmo e aos fumantes passivos que estiverem por perto. Ronaldo atenta contra a própria saude, escolhendo morrer com câncer de pulmão, próstata, bexiga, língua e outros. É um livre arbítrio. Nenhum fumante sofre acessos de violência, comete acidentes de trânsito, mata ou morre por fumar tabaco. Todo o estardalhaço contra a indústria do fumo é justo. E contra o álcool, mil vezes mais preocupante para a segurança e a saude pública, não se faz nada?
Condena-se Ronaldo por fumar, mas ninguém o critica por induzir as pessoas ao alcoolismo. A torcida do Corinthians pichou paredes, depredou carros, jogou pedras no ônibus do time porque ficou fora da Libertadores. Os milhares de brasileiros vítimas de bêbados não jogaram uma única pedra em Ronaldo, nem escreveram um único abaixo assinado pedindo que ele pare de incitar as pessoas ao alcoolismo.
E Ronaldo sobrevive, espertamente, como bem escreveu Shakespeare na comédia Muito barulho por coisa nenhuma: "Pensais que me importam uma sátira ou um epigrama? Não, se um homem se deixa abater pelo que os outros pensam, nada de proveitoso conseguirá para si."
Autor: Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.
Fonte: Terra Magazine
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23 fevereiro, 2011
20 janeiro, 2011
A seleção movida a álcool
Fonte: Observatório da Imprensa
Artigo escrito Por Carlos Salgado - Psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead).
O técnico é novo, mas a história é velha conhecida. Mais uma vez assistimos a uma figura da seleção brasileira de futebol ceder sua imagem para a publicidade de bebidas alcoólicas e contribuir para reforçar um conceito cultural distorcido, mas bastante difundido no país, que associa o futebol à cerveja. Nossos técnicos e jogadores de futebol precisam entender que a publicidade é um importante incentivo para o consumo do álcool. E os jovens, apaixonados por futebol e que têm nos gramados ídolos capazes de influenciar comportamentos, são o maior alvo desse tipo de propaganda.
A relação entre os adolescentes e consumo de bebidas alcoólicas no Brasil é alarmante. Os garotos e garotas entre 14 e 17 anos são responsáveis por 6% de todo o consumo anual de álcool no país, ainda que, reza a lei, sejam proibidos de comprá-lo, o que prova nossa fragilidade em cumprir a legislação e deflagra os perigos da experimentação, que acontece cada vez mais cedo.
Essa vulnerabilidade abre caminho para que a publicidade potencialize o consumo desse grupo e nos leva a uma triste perspectiva. Se 90% dos jovens começam com o álcool antes dos 18 anos, o risco de a sociedade deparar com adultos dependentes de bebidas alcoólicas é diretamente proporcional.
Também a embriaguez, o chamado "porre", pode, para muitos, parecer apenas brincadeira da garotada, mas evidencia o sintoma de uma conduta social que inconscientemente aprova o consumo de álcool. Essas crises de ingestão, em muitos casos, estão relacionadas com violência, sexo desprotegido, acidentes e maior risco de dano cerebral, além do evidente risco da fixação do hábito.
Impacto negativo
Esse é um grupo intricado, mas no qual as empresas avistam um "mercado" potencial e, sem as devidas e há muito esperadas medidas restritivas, no qual seguem com maciço investimento. Um estudo recente que analisou 420 horas de programação televisiva, por exemplo, identificou que a maioria das propagandas de bebidas alcoólicas acontece durante programas esportivos, com ao menos 10% de audiência de adolescentes. Não houve nenhum programa esportivo que não tivesse bebidas alcoólicas entre os anúncios.
O risco social é iminente, pois sabemos também que o álcool é apenas a porta de entrada para outras drogas, principalmente as chamadas "drogas leves", como a maconha. Portanto, prevenção para o consumo de drogas é fundamental, mas cairá no vazio se não houver medidas restritivas à publicidade de bebidas alcoólicas.
É necessário combater a ideia de que o futebol é um espetáculo movido a cerveja e que beber é o "esporte" dos jovens. Pelo contrário, a droga amplifica as rivalidades e a tensão entre torcedores apaixonados e em natural oposição, infelizmente facilitando a agressividade. O impacto negativo para a sociedade e para a saúde pública é evidente e lamento que figuras admiradas sejam protagonistas de histórias que não nos dão nenhum selo de qualidade.
Artigo escrito Por Carlos Salgado - Psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead).
O técnico é novo, mas a história é velha conhecida. Mais uma vez assistimos a uma figura da seleção brasileira de futebol ceder sua imagem para a publicidade de bebidas alcoólicas e contribuir para reforçar um conceito cultural distorcido, mas bastante difundido no país, que associa o futebol à cerveja. Nossos técnicos e jogadores de futebol precisam entender que a publicidade é um importante incentivo para o consumo do álcool. E os jovens, apaixonados por futebol e que têm nos gramados ídolos capazes de influenciar comportamentos, são o maior alvo desse tipo de propaganda.
A relação entre os adolescentes e consumo de bebidas alcoólicas no Brasil é alarmante. Os garotos e garotas entre 14 e 17 anos são responsáveis por 6% de todo o consumo anual de álcool no país, ainda que, reza a lei, sejam proibidos de comprá-lo, o que prova nossa fragilidade em cumprir a legislação e deflagra os perigos da experimentação, que acontece cada vez mais cedo.
Essa vulnerabilidade abre caminho para que a publicidade potencialize o consumo desse grupo e nos leva a uma triste perspectiva. Se 90% dos jovens começam com o álcool antes dos 18 anos, o risco de a sociedade deparar com adultos dependentes de bebidas alcoólicas é diretamente proporcional.
Também a embriaguez, o chamado "porre", pode, para muitos, parecer apenas brincadeira da garotada, mas evidencia o sintoma de uma conduta social que inconscientemente aprova o consumo de álcool. Essas crises de ingestão, em muitos casos, estão relacionadas com violência, sexo desprotegido, acidentes e maior risco de dano cerebral, além do evidente risco da fixação do hábito.
Impacto negativo
Esse é um grupo intricado, mas no qual as empresas avistam um "mercado" potencial e, sem as devidas e há muito esperadas medidas restritivas, no qual seguem com maciço investimento. Um estudo recente que analisou 420 horas de programação televisiva, por exemplo, identificou que a maioria das propagandas de bebidas alcoólicas acontece durante programas esportivos, com ao menos 10% de audiência de adolescentes. Não houve nenhum programa esportivo que não tivesse bebidas alcoólicas entre os anúncios.
O risco social é iminente, pois sabemos também que o álcool é apenas a porta de entrada para outras drogas, principalmente as chamadas "drogas leves", como a maconha. Portanto, prevenção para o consumo de drogas é fundamental, mas cairá no vazio se não houver medidas restritivas à publicidade de bebidas alcoólicas.
É necessário combater a ideia de que o futebol é um espetáculo movido a cerveja e que beber é o "esporte" dos jovens. Pelo contrário, a droga amplifica as rivalidades e a tensão entre torcedores apaixonados e em natural oposição, infelizmente facilitando a agressividade. O impacto negativo para a sociedade e para a saúde pública é evidente e lamento que figuras admiradas sejam protagonistas de histórias que não nos dão nenhum selo de qualidade.
20 junho, 2010
Mais seleção e cerveja
Futebol, patriotismo e cerveja
Por Lilia Diniz em 16/6/2010
Copa do Mundo, a maior festa esporte no Brasil. Em frente à TV, milhões de telespectadores de todas as idades torcem entusiasmados pela seleção brasileira. Dentro dos gramados, nossos craques vendem saúde e... cerveja. Em 2010, a marca Brahma financia quatro jogadores brasileiros e é uma das patrocinadoras oficiais Copa do Mundo realizada na África do Sul. A venda da bebida é lícita e o hábito de acompanhar os jogos de futebol com cerveja é um traço da cultura brasileira, mas é aceitável que um produto cujos malefícios são comprovados cientificamente associe a sua marca à pratica do esporte?
O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (15/6) pela TV Brasil discutiu a publicidade de bebida alcoólica em eventos esportivos com a presença de dois convidados no estúdio de São Paulo. Erich Beting, diretor da Máquina do Esporte, empresa de cobertura dos negócios do esporte no Brasil e comentarista do canal BandSports é consultor editorial da Universidade do Futebol. Ronaldo Laranjeira é professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas (INPAD) do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). É PhD em psiquiatria pela Universidade de Londres.
O jornalista e apresentador Alberto Dines explicou que a produção do Observatório entrou em contato com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para saber como a entidade avalia a associação da seleção brasileira com uma marca de cerveja e a assessoria de imprensa garantiu que o time não tem nenhuma bebida alcoólica entre seus patrocinadores. Dines ponderou que a resposta é "curiosa", uma vez que o treinador Dunga e outros jogadores aparecem em comerciais com a camisa amarela.
Patrocina ou não?
O mediador do programa destacou que a explicação fica mais inconsistente porque o site da Brahma assegura que a marca é uma das patrocinadoras oficiais da seleção. O Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também foi convidado para o debate, mas não pode participar e enviou uma nota (ver íntegra abaixo) na qual afirma que a entidade veta a associação de marcas de bebidas alcoólicas a uniformes de esportes olímpicos e quaisquer apelos que sensibilizem diretamente o público menor de idade.
Em editorial, Alberto Dines ressaltou que quem manda fora dos gramados é a cerveja. "O anúncio de cerveja não é uma peça subliminar, disfarçada: o anúncio de cerveja é concebido para estimular diretamente o consumo da bebida, bebida alcoólica. E, ao associá-la à sensação de alegria e triunfo, emite-se uma mensagem clara: seja um vitorioso também, tome a sua cervejinha ao lado de uma estonteante morena brasileira ou loura importada." Dines sublinhou que o Conar só obedece a uma lei: "crescer sem controles e sem regulação".
A reportagem exibida pelo Observatório entrevistou Robert Galbrait, repórter especial da revista Meio e Mensagem. Galbrait explicou que em 2006 "toda a visibilidade" era concentrada na marca de cerveja Budweiser. Mas, depois da última Copa, o mercado das cervejas ficou mais complexo e a Ferderação Internacional de Futebol Associado (Fifa) precisou mudar o contrato. "A Inbev Anheuser-Busch virou o grande conglomerado mundial das cervejas, de maneira que o marketing desta nova corporação decidiu rever o acordo com a Fifa para fazer com que todas as suas marcas pudessem ser exibidas com este contrato de patrocínio", explicou.
Seleção guerreira
De acordo com o novo contrato, as marcas exibidas nas placas dos estádios durante os jogos serão as comercializadas nos países que estão em campo. Com isso, a Brahma pode entrar no time das marcas que serão exibidas na Copa. No Brasil, a marca de cerveja lançou sua campanha antes do início do torneio. Na peça publicitária veiculada pela televisão, Dunga e a seleção eram apresentados como "guerreiros".
Para Eduardo Tironi, diretor-executivo de Mídias Digitais do diário Lance!, o futebol brasileiro é "mais artístico" e, por isso, bem diferente do apresentado na propaganda. Tironi avalia que o fato de o técnico Dunga – que na sua vida pessoal e na atuação como comandante da seleção sempre buscou valorizar aspectos como "retidão, compromisso e patriotismo" – fazer propaganda de cerveja o deixa em uma posição contraditória. "Ao mesmo tempo em que o Dunga não aceita indisciplina em seu grupo, quer dedicação total, quer treinamento, exige ao máximo de seus comandados, ele faz propaganda de um produto que vai um pouco na contramão disso que ele prega", avaliou.
O desembargador Aloísio de Toledo César se disse "horrorizado" com o que acompanha pela televisão e criticou o fato de os jogadores, e principalmente o técnico Dunga, receberem altas quantias para fazer publicidade de bebida alcoólica. Já Robert Galbrait minimizou o impacto da publicidade: "Sinceramente, eu não consigo acreditar que uma criança vá ver uma marca – Brahma – e associar com o consumo de álcool".
Ilana Pinsk, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), avalia que a ligação do álcool com o esporte "não tem sentido" porque uma pessoa que consuma exageradamente o produto não terá capacidade de apresentar um bom desempenho no esporte.
A palavra da Ambev
Milton Seligman, diretor de relações corporativas e comunicação da Companhia de Bebidas da Américas (AmBev), disse que a empresa assina os comerciais da Brahma, que é patrocinadora, mas no uniforme da seleção usa a marca de um refrigerante. "Cervejas patrocinam times de futebol no mundo todo. No caso da companhia, nós patrocinamos a seleção brasileira e a seleção argentina. Na verdade, há muitos anos, a Quilmes patrocina a seleção da argentina e há dez anos a Ambev patrocina a seleção brasileira. Na camisa do Brasil, à exceção da grande maioria dos países e seguindo rigorosamente a autorregulamentação, nós usamos a marca Guaraná Antártica", ponderou.
Seligman destacou que as pesquisas mostram que o futebol – tanto em termos de audiência pela TV quanto em relação ao público que assiste às partidas nos estádios – é um esporte acompanhado majoritariamente por adultos; por isso, não há problema em fazer propaganda de álcool ligada ao futebol. Sobre o horário em que os comerciais são veiculados, Seligman afirmou que a bebida é anunciada em programas dirigidos ao público adulto, independente da hora em que são transmitidos. O uso de ídolos do esporte em comerciais de bebida é válido, na opinião de Seligman, desde que a publicidade não seja dirigida diretamente ao público infantil ou aos jovens.
No debate ao vivo, Dines pediu a opinião do psiquiatra Ronaldo Laranjeira sobre as afirmações de que as crianças não associam a publicidade de uma marca de cerveja ao consumo de álcool e que o público do futebol é majoritariamente adulto. "É surpreendente. Eu não sei em que mundo essas pessoas vivem, em que bombardear todos os dias as nossas crianças com propaganda de cerveja não tem uma influência no seu comportamento", criticou Laranjeira. Na sua opinião, as pessoas que associam os símbolos nacionais com a propaganda de cerveja estão cometendo um crime contra os valores da sociedade brasileira, que se expressam claramente em um momento como a Copa do Mundo.
O papel do governo
Laranjeira chamou a atenção para o fato de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou recentemente uma resolução segundo a qual, dentro das políticas mundiais de combate ao consumo excessivo de álcool, é preciso restringir ao máximo as propagandas de cerveja. Estas causam impacto maior na parcela da população que ainda não desenvolveu um padrão de consumo: as crianças e adolescentes. Para Laranjeira, o Ministério da Saúde poderia utilizar a resolução da OMS para promover um debate público sobre o tema. Na visão do psiquiatra, o ministério perdeu a chance de ter um papel de liderança e de se opor à "venda de valores nacionais pela CBF".
Dines perguntou a Erich Beting se a publicidade de bebida alcoólica poderia ser banida do futebol da mesma forma como, no passado, a propaganda de cigarro foi proibida em eventos automobilísticos. Beting disse que o caminho é o próprio esporte negar este tipo de comercial e se colocar em uma posição de soberania. Segundo o jornalista, a CBF fatura mais de 200 milhões de reais em publicidade e o contrato com a AmBev não corresponde a 10% desta soma – portanto, a seleção brasileira não dependeria necessariamente deste patrocinador.
"Cabe ao esporte e às próprias empresas de comunicação não aceitarem esse tipo de publicidade ou colocar-se a serviço desse tipo de indústria. Perde-se um pouco de dinheiro, mas, sem dúvida, ganha-se em retorno de imagem, em retorno institucional e, mais do que isso, o apelo da população que é contra este tipo de associação", avaliou.
***
A seleção da cerveja
Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 550, no ar em 15/6/2010
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
Começou hoje [terça, 15/6] a temporada de emoções. E enquanto a TV está neste momento envolvida com a discussão sobre a partida desta tarde, vamos desenvolver uma pauta que nenhum veículo jornalístico, sobretudo na mídia eletrônica, ousaria tocar, muito menos aprofundar. No jogo que vamos comentar quem está perdendo somos nós, a sociedade brasileira, e perdendo por uma goleada.
O megaespetáculo e meganegócio chamado futebol tem muitos protagonistas, mas fora dos gramados quem manda é a cerveja. Neste mundial, a Brahma tornou-se a primeira marca brasileira a patrocinar o evento chamado Copa do Mundo. E qual o problema? Se a Adidas, a Sony e a Visa patrocinam a Fifa, por que uma cervejeira não pode participar da festa? Você sabe por que: o anúncio de cerveja não é uma peça subliminar, disfarçada: o anúncio de cerveja é concebido para estimular diretamente o consumo da bebida, bebida alcoólica. E, ao associá-la à sensação de alegria e triunfo, emite-se uma mensagem clara: seja um vitorioso também, tome a sua cervejinha ao lado de uma estonteante morena brasileira ou loura importada.
O Ministério da Saúde andou preocupado com a excessiva presença da propaganda de cerveja em nossa TV. Estava certo porque é dever do Estado promover a saúde pública através de políticas públicas preventivas. O alcoolismo não é brincadeira, os jovens são responsáveis por 6% do que se consome de álcool no país. Adultos entre 18 e 29 anos, que correspondem a 22% da população brasileira, entornam 40 % do álcool consumido.
Apesar dessas dramáticas cifras, o Ministério da Saúde recuou. A bola ficou com o Conar, o tão badalado Conselho de Autorregulação Publicitária que proclama sua preocupação diante dos apelos cervejeiros dirigidos às crianças e adolescentes. Mas o Conar é uma entidade criada pelo mercado e o mercado só obedece a uma lei: crescer, crescer sem controles e sem regulação.
Como a imprensa não costuma questionar os interesses dos anunciantes, só nos resta apelar para a consciência daqueles que sustentam a imprensa: você leitor, você internauta, você telespectador, você ouvinte. Se perdemos esta parada, quem perde é o Brasil.
***
Nota do Conar
A autorregulamentação publicitária brasileira já há vários anos veta a associação de marcas de bebidas alcoólicas a uniformes de esportes olímpicos, da mesma forma que apelos de qualquer natureza que possam sensibilizar diretamente o público menor de idade. Estas e outras limitações ultrapassam em muito as exigências ditadas pela legislação brasileira.
Defendemos o princípio da autorregulamentação para a publicidade, em linha com as recomendações, por exemplo, da Comunidade Européia e Organização Mundial de Saúde, como caminho indispensável para o aprimoramento da atividade. Quanto ao assunto objeto da pauta do programa, trata-se de relacionamento comercial entre CBF e Ambev, que não diz respeito à autorregulamentação publicitária. (Gilberto C. Leifert – Presidente do Conar)
Fonte: Observatório da Imprensa
Por Lilia Diniz em 16/6/2010
Copa do Mundo, a maior festa esporte no Brasil. Em frente à TV, milhões de telespectadores de todas as idades torcem entusiasmados pela seleção brasileira. Dentro dos gramados, nossos craques vendem saúde e... cerveja. Em 2010, a marca Brahma financia quatro jogadores brasileiros e é uma das patrocinadoras oficiais Copa do Mundo realizada na África do Sul. A venda da bebida é lícita e o hábito de acompanhar os jogos de futebol com cerveja é um traço da cultura brasileira, mas é aceitável que um produto cujos malefícios são comprovados cientificamente associe a sua marca à pratica do esporte?
O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (15/6) pela TV Brasil discutiu a publicidade de bebida alcoólica em eventos esportivos com a presença de dois convidados no estúdio de São Paulo. Erich Beting, diretor da Máquina do Esporte, empresa de cobertura dos negócios do esporte no Brasil e comentarista do canal BandSports é consultor editorial da Universidade do Futebol. Ronaldo Laranjeira é professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas (INPAD) do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). É PhD em psiquiatria pela Universidade de Londres.
O jornalista e apresentador Alberto Dines explicou que a produção do Observatório entrou em contato com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para saber como a entidade avalia a associação da seleção brasileira com uma marca de cerveja e a assessoria de imprensa garantiu que o time não tem nenhuma bebida alcoólica entre seus patrocinadores. Dines ponderou que a resposta é "curiosa", uma vez que o treinador Dunga e outros jogadores aparecem em comerciais com a camisa amarela.
Patrocina ou não?
O mediador do programa destacou que a explicação fica mais inconsistente porque o site da Brahma assegura que a marca é uma das patrocinadoras oficiais da seleção. O Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também foi convidado para o debate, mas não pode participar e enviou uma nota (ver íntegra abaixo) na qual afirma que a entidade veta a associação de marcas de bebidas alcoólicas a uniformes de esportes olímpicos e quaisquer apelos que sensibilizem diretamente o público menor de idade.
Em editorial, Alberto Dines ressaltou que quem manda fora dos gramados é a cerveja. "O anúncio de cerveja não é uma peça subliminar, disfarçada: o anúncio de cerveja é concebido para estimular diretamente o consumo da bebida, bebida alcoólica. E, ao associá-la à sensação de alegria e triunfo, emite-se uma mensagem clara: seja um vitorioso também, tome a sua cervejinha ao lado de uma estonteante morena brasileira ou loura importada." Dines sublinhou que o Conar só obedece a uma lei: "crescer sem controles e sem regulação".
A reportagem exibida pelo Observatório entrevistou Robert Galbrait, repórter especial da revista Meio e Mensagem. Galbrait explicou que em 2006 "toda a visibilidade" era concentrada na marca de cerveja Budweiser. Mas, depois da última Copa, o mercado das cervejas ficou mais complexo e a Ferderação Internacional de Futebol Associado (Fifa) precisou mudar o contrato. "A Inbev Anheuser-Busch virou o grande conglomerado mundial das cervejas, de maneira que o marketing desta nova corporação decidiu rever o acordo com a Fifa para fazer com que todas as suas marcas pudessem ser exibidas com este contrato de patrocínio", explicou.
Seleção guerreira
De acordo com o novo contrato, as marcas exibidas nas placas dos estádios durante os jogos serão as comercializadas nos países que estão em campo. Com isso, a Brahma pode entrar no time das marcas que serão exibidas na Copa. No Brasil, a marca de cerveja lançou sua campanha antes do início do torneio. Na peça publicitária veiculada pela televisão, Dunga e a seleção eram apresentados como "guerreiros".
Para Eduardo Tironi, diretor-executivo de Mídias Digitais do diário Lance!, o futebol brasileiro é "mais artístico" e, por isso, bem diferente do apresentado na propaganda. Tironi avalia que o fato de o técnico Dunga – que na sua vida pessoal e na atuação como comandante da seleção sempre buscou valorizar aspectos como "retidão, compromisso e patriotismo" – fazer propaganda de cerveja o deixa em uma posição contraditória. "Ao mesmo tempo em que o Dunga não aceita indisciplina em seu grupo, quer dedicação total, quer treinamento, exige ao máximo de seus comandados, ele faz propaganda de um produto que vai um pouco na contramão disso que ele prega", avaliou.
O desembargador Aloísio de Toledo César se disse "horrorizado" com o que acompanha pela televisão e criticou o fato de os jogadores, e principalmente o técnico Dunga, receberem altas quantias para fazer publicidade de bebida alcoólica. Já Robert Galbrait minimizou o impacto da publicidade: "Sinceramente, eu não consigo acreditar que uma criança vá ver uma marca – Brahma – e associar com o consumo de álcool".
Ilana Pinsk, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), avalia que a ligação do álcool com o esporte "não tem sentido" porque uma pessoa que consuma exageradamente o produto não terá capacidade de apresentar um bom desempenho no esporte.
A palavra da Ambev
Milton Seligman, diretor de relações corporativas e comunicação da Companhia de Bebidas da Américas (AmBev), disse que a empresa assina os comerciais da Brahma, que é patrocinadora, mas no uniforme da seleção usa a marca de um refrigerante. "Cervejas patrocinam times de futebol no mundo todo. No caso da companhia, nós patrocinamos a seleção brasileira e a seleção argentina. Na verdade, há muitos anos, a Quilmes patrocina a seleção da argentina e há dez anos a Ambev patrocina a seleção brasileira. Na camisa do Brasil, à exceção da grande maioria dos países e seguindo rigorosamente a autorregulamentação, nós usamos a marca Guaraná Antártica", ponderou.
Seligman destacou que as pesquisas mostram que o futebol – tanto em termos de audiência pela TV quanto em relação ao público que assiste às partidas nos estádios – é um esporte acompanhado majoritariamente por adultos; por isso, não há problema em fazer propaganda de álcool ligada ao futebol. Sobre o horário em que os comerciais são veiculados, Seligman afirmou que a bebida é anunciada em programas dirigidos ao público adulto, independente da hora em que são transmitidos. O uso de ídolos do esporte em comerciais de bebida é válido, na opinião de Seligman, desde que a publicidade não seja dirigida diretamente ao público infantil ou aos jovens.
No debate ao vivo, Dines pediu a opinião do psiquiatra Ronaldo Laranjeira sobre as afirmações de que as crianças não associam a publicidade de uma marca de cerveja ao consumo de álcool e que o público do futebol é majoritariamente adulto. "É surpreendente. Eu não sei em que mundo essas pessoas vivem, em que bombardear todos os dias as nossas crianças com propaganda de cerveja não tem uma influência no seu comportamento", criticou Laranjeira. Na sua opinião, as pessoas que associam os símbolos nacionais com a propaganda de cerveja estão cometendo um crime contra os valores da sociedade brasileira, que se expressam claramente em um momento como a Copa do Mundo.
O papel do governo
Laranjeira chamou a atenção para o fato de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou recentemente uma resolução segundo a qual, dentro das políticas mundiais de combate ao consumo excessivo de álcool, é preciso restringir ao máximo as propagandas de cerveja. Estas causam impacto maior na parcela da população que ainda não desenvolveu um padrão de consumo: as crianças e adolescentes. Para Laranjeira, o Ministério da Saúde poderia utilizar a resolução da OMS para promover um debate público sobre o tema. Na visão do psiquiatra, o ministério perdeu a chance de ter um papel de liderança e de se opor à "venda de valores nacionais pela CBF".
Dines perguntou a Erich Beting se a publicidade de bebida alcoólica poderia ser banida do futebol da mesma forma como, no passado, a propaganda de cigarro foi proibida em eventos automobilísticos. Beting disse que o caminho é o próprio esporte negar este tipo de comercial e se colocar em uma posição de soberania. Segundo o jornalista, a CBF fatura mais de 200 milhões de reais em publicidade e o contrato com a AmBev não corresponde a 10% desta soma – portanto, a seleção brasileira não dependeria necessariamente deste patrocinador.
"Cabe ao esporte e às próprias empresas de comunicação não aceitarem esse tipo de publicidade ou colocar-se a serviço desse tipo de indústria. Perde-se um pouco de dinheiro, mas, sem dúvida, ganha-se em retorno de imagem, em retorno institucional e, mais do que isso, o apelo da população que é contra este tipo de associação", avaliou.
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A seleção da cerveja
Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 550, no ar em 15/6/2010
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
Começou hoje [terça, 15/6] a temporada de emoções. E enquanto a TV está neste momento envolvida com a discussão sobre a partida desta tarde, vamos desenvolver uma pauta que nenhum veículo jornalístico, sobretudo na mídia eletrônica, ousaria tocar, muito menos aprofundar. No jogo que vamos comentar quem está perdendo somos nós, a sociedade brasileira, e perdendo por uma goleada.
O megaespetáculo e meganegócio chamado futebol tem muitos protagonistas, mas fora dos gramados quem manda é a cerveja. Neste mundial, a Brahma tornou-se a primeira marca brasileira a patrocinar o evento chamado Copa do Mundo. E qual o problema? Se a Adidas, a Sony e a Visa patrocinam a Fifa, por que uma cervejeira não pode participar da festa? Você sabe por que: o anúncio de cerveja não é uma peça subliminar, disfarçada: o anúncio de cerveja é concebido para estimular diretamente o consumo da bebida, bebida alcoólica. E, ao associá-la à sensação de alegria e triunfo, emite-se uma mensagem clara: seja um vitorioso também, tome a sua cervejinha ao lado de uma estonteante morena brasileira ou loura importada.
O Ministério da Saúde andou preocupado com a excessiva presença da propaganda de cerveja em nossa TV. Estava certo porque é dever do Estado promover a saúde pública através de políticas públicas preventivas. O alcoolismo não é brincadeira, os jovens são responsáveis por 6% do que se consome de álcool no país. Adultos entre 18 e 29 anos, que correspondem a 22% da população brasileira, entornam 40 % do álcool consumido.
Apesar dessas dramáticas cifras, o Ministério da Saúde recuou. A bola ficou com o Conar, o tão badalado Conselho de Autorregulação Publicitária que proclama sua preocupação diante dos apelos cervejeiros dirigidos às crianças e adolescentes. Mas o Conar é uma entidade criada pelo mercado e o mercado só obedece a uma lei: crescer, crescer sem controles e sem regulação.
Como a imprensa não costuma questionar os interesses dos anunciantes, só nos resta apelar para a consciência daqueles que sustentam a imprensa: você leitor, você internauta, você telespectador, você ouvinte. Se perdemos esta parada, quem perde é o Brasil.
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Nota do Conar
A autorregulamentação publicitária brasileira já há vários anos veta a associação de marcas de bebidas alcoólicas a uniformes de esportes olímpicos, da mesma forma que apelos de qualquer natureza que possam sensibilizar diretamente o público menor de idade. Estas e outras limitações ultrapassam em muito as exigências ditadas pela legislação brasileira.
Defendemos o princípio da autorregulamentação para a publicidade, em linha com as recomendações, por exemplo, da Comunidade Européia e Organização Mundial de Saúde, como caminho indispensável para o aprimoramento da atividade. Quanto ao assunto objeto da pauta do programa, trata-se de relacionamento comercial entre CBF e Ambev, que não diz respeito à autorregulamentação publicitária. (Gilberto C. Leifert – Presidente do Conar)
Fonte: Observatório da Imprensa
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