23 fevereiro, 2011

Muito trabalho para coisa nenhuma

A imprensa quis levantar poeira com a foto de Ronaldo Fenômeno fumando dentro de sua casa, na festa que deu para Anderson Silva, lutador do MMA. Ronaldo queixou-se: "Sempre respeitei os fotógrafos e sempre tentei ajudar, só que dessa vez passaram do limite!" E ameaçou processar o fotógrafo. Veja escreveu que Ronaldo fuma desde os tempos do Real Madrid, cerca de dois maços de Marlboro por dia.

É claro que o cigarro não arranhou a imagem do ídolo. Da mesma forma que Ronaldo nunca foi julgado pelo contrato que mantém com a AmBev há mais de dezessete anos, renovado no ano passado até 2020. A imprensa faz estardalhaço porque Ronaldo fuma e não diz nada quando ele promove a venda de cerveja, incitando milhões de jovens a beberem, apesar dos nossos problemas gravíssimos de alcoolismo e de já ocuparmos o primeiro lugar mundial no consumo de álcool.

Somos um país de ética pervertida, de moral frouxa e elástica. Um deputado norte-americano demitiu-se da função, porque mostrou o corpo atlético na internet. Envergonhou-se do que considerou um despudor. No Brasil, ninguém deu a mínima para a nebulosa história de Ronaldo com os três travestis, para as acusações de uso de cocaína e prática de sexo sem preservativo. O Fenômeno queixou-se chorando: "Minha carreira acabou." Acabou nada.

Ronaldo renovou todos os contratos milionários que fazem dele o dono de uma fortuna de um bilhão de reais. Além dos milhões anuais recebidos da Nike, Claro, Vale e Hypermarcas, ele embolsa 2,5 milhões de dólares por ano da AmBev, para aliciar as pessoas a beberem cerveja. Sempre me escandalizava quando o ídolo, muito jovem ainda, levantava um dedo para cima após um gol, marca publicitária da cerveja Brahma, a número 1.

A torcida brasileira estava se lixando para o tabagismo de Ronaldo. Ela queria saber apenas se ele fazia gols, se levava o time para a final dos campeonatos e trazia a vitória. A obesidade de Ronaldo preocupava apenas porque ele não rendia em campo. Mas, se ele chegasse à marca dos 34 gols em 47 jogos, que alcançou no Internazionale de Milão, poderia pesar duzentos quilos. Ninguém se importa que Ronaldo influencie os jovens a beber. Todos acham bacana ele ganhar os anuais dois milhões e meios da AmBev. No Brasil, herói é quem se dá bem e ganha muito dinheiro a qualquer preço. Basta ver a moral do Big Brother.

Devastaram a carreira do nadador norte-americano Michael Phelps, que ganhou oito medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, depois que o flagraram fumando maconha. Seus assessores não conseguiram negociar com o tablóide que a foto não fosse publicada e o caso abafado. É verdade que maconha é uma droga ilícita. O álcool, responsável por acidentes de trânsito, transtornos de comportamento e violência, é lícito e pode-se até fazer propaganda dele, incitando os jovens a beber.

O jogador Edmundo Animal envolveu-se em acidente de carro com vítimas e estava bêbado. Deputados envolvem-se em acidentes de carro com vítimas, estando bêbados. E o que acontece? Nada. A justiça continua cega? Que mal o tabagismo de Ronaldo faz às pessoas, se ele não fuma em lugares públicos e faz questão de não ser visto fumando?

O tabagismo de Ronaldo só faz mal a ele mesmo e aos fumantes passivos que estiverem por perto. Ronaldo atenta contra a própria saude, escolhendo morrer com câncer de pulmão, próstata, bexiga, língua e outros. É um livre arbítrio. Nenhum fumante sofre acessos de violência, comete acidentes de trânsito, mata ou morre por fumar tabaco. Todo o estardalhaço contra a indústria do fumo é justo. E contra o álcool, mil vezes mais preocupante para a segurança e a saude pública, não se faz nada?

Condena-se Ronaldo por fumar, mas ninguém o critica por induzir as pessoas ao alcoolismo. A torcida do Corinthians pichou paredes, depredou carros, jogou pedras no ônibus do time porque ficou fora da Libertadores. Os milhares de brasileiros vítimas de bêbados não jogaram uma única pedra em Ronaldo, nem escreveram um único abaixo assinado pedindo que ele pare de incitar as pessoas ao alcoolismo.

E Ronaldo sobrevive, espertamente, como bem escreveu Shakespeare na comédia Muito barulho por coisa nenhuma: "Pensais que me importam uma sátira ou um epigrama? Não, se um homem se deixa abater pelo que os outros pensam, nada de proveitoso conseguirá para si."

Autor: Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livro dos Homens e Galiléia.

Fonte: Terra Magazine

18 fevereiro, 2011

Álcool mata mais que AIDS, tuberculose e violência

O álcool causa quase 4% das mortes no mundo todo, mais do que a Aids, a tuberculose e a violência, alertou a OMS (Organização Mundial da Saúde) nesta sexta-feira (11/02/11).

O aumento da renda tem provocado o consumo excessivo em países populosos da África e da Ásia, incluindo Índia e África do Sul. Além disso, beber em excesso é um problema em muitos países desenvolvidos, informou a agência das Nações Unidas.

No entanto, as políticas de controle do álcool são fracas e ainda não são prioridade para a maioria dos governos, apesar do impacto que o hábito causa na sociedade: acidentes de carro, violência, doenças, abandono de crianças e ausência no trabalho, de acordo com o relatório.

Cerca de 2,5 milhões de pessoas morrem anualmente por causas relacionadas ao álcool, disse a OMS em seu "Relatório Global da Situação sobre Álcool e Saúde".

"O uso prejudicial do álcool é especialmente fatal em grupos etários mais jovens e beber é o principal fator de risco de morte no mundo entre homens de 15 a 59 anos", afirma o relatório.

Na Rússia e na CEI (Comunidade dos Estados Independentes), uma em cada cinco mortes ocorre devido ao consumo prejudicial, a taxa mais elevada do planeta.

A bebedeira, que muitas vezes leva a um comportamentos de risco, agora é prevalente no Brasil, Cazaquistão, México, Rússia, África do Sul e na Ucrânia, e está aumentando entre outras populações, segundo a OMS.

"Mundialmente, cerca de 11% dos consumidores de álcool bebem bastante em ocasiões semanais; os homens superam as mulheres em quatro a cada uma. Eles praticam constantemente um consumo de risco em níveis muito mais elevados do que as mulheres em todas as regiões", disse o relatório.

Em maio passado, ministros da Saúde dos 193 países-membros da OMS concordaram em tentar conter o consumo excessivo de álcool e de outras formas crescentes do uso excessivo por meio de altos impostos sobre bebidas alcoólicas e restrições mais rígidas de comercialização.

Fontes :
Correio do Estado

OMS

16 fevereiro, 2011

Mecanismo de Ação da Ibogaína

É muito importante atualizar a explicação científica sobre o mecanismo de ação da ibogaína, explicação esta que era prevalente na época de 1994 a 2004, de que o efeito anti-dependência era devido a um metabólito de longa duração, a nor-ibogaína. Esta nor-ibogaína ligar-se-ia fracamente a receptores opióides e elevaria os níveis de serotonina. Como muitas explicações, esta revelou-se, atualmente, apenas parcialmente verdadeira.

Em 2005, uma pesquisadora da Universidade da Califórnia, Dorit Don, descobriu a razão pela qual ibogaína é efetiva contra um amplo espectro de drogas aditivas, incluindo metanfetamina e cocaína. Dentro de 6 horas após sua administração, a ibogaína provoca um aumento de 6 a 12 vezes na expressão de um fator de crescimento (GDNF – Glial Cell Derivated Neurothrofic Factor) que não apenas estimula o crescimento dos axônios dos neurônios dopaminérgicos e suas interconexões, mas também provoca um feedback positivo estimulando a fabricação de mais GDNF, fazendo com que a regeneração neural continue mesmo quando a substãncia já foi eliminada do organismo, explicando seu efeito duradouro a longo prazo

Assim sendo, o efeito da Ibogaína ocorre atraves de 3 estágios:

- a combinação do bloqueio (antagonismo) dos receptores NMDA, (como a ketamina), dos receptores nicotínicos alfa 3 beta 4 (como a bupropiona) e agonismo em relação ao receptor opioide kappa, (como a Salvia divinorum), o que faz com que a pessoa consiga perceber o efeito novamente das suas próprias endorfinas, eliminando a abstinência em 30 minutos e a fissura (craving) em 45 minutos;

-uma dose alta de ibogaína ocupa todo o aparato enzimático de metabolização no fígado, fazendo com que a ibogaína excedente e não metabolizada de imediato seja depositada no tecido gorduroso, sendo tambem aos poucos então transformada em nor-ibogaína e elevando de forma consistente e duradoura os níveis de serotonina, melhorando o humor por até 12 semanas;

-Dentro de 48 horas da ingestão, neurônios por todo o cérebro estão produzindo novos receptores de dopamina, (efeito do GDNF), então o paciente não precisa do uso de drogas para aumentar seus níveis de dopamina artificialmente. Este é o efeito mais importante, pois sem dopamina em quantidades adequadas, a maioria dos pacientes recai.

Apenas para esclarecer... me desculpem os leitores leigos e não afeitos a tal profundidade de explicações, mas estas são informações importantes.

Sobre GDNF

28 janeiro, 2011

Por uma nova Política de drogas

Um grupo de notáveis apresentou terça-feira (25) em Genebra uma iniciativa conhecida como Comissão Global de Política de Drogas.

Ao invés da estratégia habitual baseada na repressão, esses políticos e intelectuais propõem eliminar as penas para a possessão de certas substâncias narcóticas.

O prestigioso Hotel da Paz às margens do lago Léman, em Genebra, foi o cenário da apresentação aos meios de comunicação de uma iniciativa realista e inabitual. Trata-se da Comissão Global de Política de Drogas, cujo objetivo é apoiar no mundo inteiro políticas eficazes e humanas de redução da pobreza, mas também provocar um grande debate público das atuais políticas de luta contra a droga.

A Comissão parte do principio de que “a guerra conta as drogas está perdida de antemão” e que as políticas repressivas praticadas em países como os Estados Unidos não serviram para quase nada. É assim que esse novo órgão, composto de personalidades de renome mundial, foi lançado em Genebra.

Influentes latinos unidos

A iniciativa apresentada na Suíça é uma extensão global de um projeto regional similar que surgiu na América Latina através dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (Brasil), Cesar Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México).

A eles se juntaram personalidades como o Premio Nobel de Literatura Mario Vargas Lhosa, o espanhol Javier Solana e o escritor mexicano Carlos Fuentes. Entre outras personalidades destacam-se a ex-ministra da Suíça Ruth Dreifuss e o magnata britânico Richard Branson, dono da companhia aérea Virgin.

Algumas das perguntas a que este seleto clube tentará responder, estão, por exemplo: Quais são os riscos e vantagens de descriminalizar a posse de maconha para consumo próprio? Quais são as alternativas para a falida guerra contra a droga?

Para encontrar resposta a essas questões difíceis, a comissão pretende “colocar na arena internacional uma discussão baseada em evidências científicas que leve em conta os direitos humanos.” Segundo observam, em numerosos países as consequências associadas à erradicação do cultivo, a violência sistêmica e a corrupção endêmica ligada ao dinheiro da droga “supera em muito os problemas do próprio consumo.”

Conforme a comissão, a atual polarização entre partidários da mão firme e da tolerância “bloqueia o debate.” Em muitos países, as políticas repressivas prevalecem sobre as políticas baseadas em princípios científicos e sociais. Porém, há exceções.

O exemplo suíço

Em uma carta aberta apresentada terça-feira e publicada por jornais suíços, o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e Michael Kazatchkine, diretor executivo do Fundo Mundial de Luta Contra a Aids, dão uma resposta possível às perguntas formuladas acima.

Na opinião deles, o exemplo a ser seguido passa pelo “modelo suíço” O político brasileiro lembra os conturbados anos 1980, quando o consumo de heroína por via intravenosa fez estragos entre viciados em Genebra e Zurique.

Ao invés de criminalizar o doente, a Suíça optou por uma política revolucionária baseada em distribuir drogas, com estrito controle médico, aos toxicômanos de há muto tempo. Segundo Fernando Henrique, enquanto em países como Rússia e Estados Unidos os infectados pelo HIV aumentaram exponencialmente, a situação na Suíça foi mantida sob controle.

De fato, do lado oposto da balança está o exemplo norte-americano. Os Estados Unidos optaram pela repressão policial em larga escala, aumentando também exponencialmente o número de prisões e de prisioneiros.

Mas se os Estados Unidos têm a maior quantidade de presos por tráfico e consumo de drogas, um “numero desproporcional entre eles são latinoamericanos e afroamericanos.

Nas palavras do ex-presidente brasileiro, “essa ofensiva permitiu aos cartéis da droga obter mais lucros do que nunca e já controlam populações inteiras na América Latina.”

Para concluir, Fernando Henrique afirmou: "Exemplos como da Suíça ou Portugal demonstraram que existem melhores soluções (ao problema da droga) do que a repressão”. Soluções que passam pelo pragmatismo helvético, somadas à compaixão e ao respeito dos direitos humanos.

Comissão Global de Política de Drogas

Objetivos:

- Estudar os riscos e benefícios da descriminalização do consumo pessoal de maconha.

- Analisar os perigos de uma possível separação entre narcotráfico em grande escala e comércio de drogas local.

- Buscar alternativas ao modelo fallido de “guerra total às drogas”

Membros:
Fernando Henrique Cardoso: ex-presidente do Brasil;
César Gaviria: ex-presidente da Colômbia;
Ernesto Zedillo: ex-presidente do México;
Ruth Dreifuss: ex-presidente da Suíça e ministra da Saúde;
Mario Vargas Llosa: escritor peruano-espanhol e Prêmio Nobel de Literatura 2010;
Carlos Fuentes: escritor e intelectual mexicano;
Sir Richard Branson: magnata britânico, fundador da Virgin;
Javier Solana: político espanhol, antigo Alto Representante para Política Exterior e Segurança Comum da União Europeia (UE).

Modelo suíço

A política de droga foi objeto de votação em várias ocasiões.

No final dos anos 1990, os suíços votaram contra uma iniciativa que pedia maior repressão em matéria de drogas para defender-se desse flagelo da juventude. Também votaram contra outra iniciativa que pretendía a descriminalização do consumo.

Em 1999, os eleitores aprovaram nas urnas um decreto federal que atribuía aos médicos a prescrição controlada de heroína.

Há 20 anos a Suíça aplica uma política baseada em quatro vertentes: prevenção, terapia, redução de riscos e repressão.

En 2008, os suíços aceitaram nas urnas que estes quatro pilares fossem inscritos na Lei de Entorpecentes.




Rodrigo Carrizo Couto, swissinfo.ch, Genebra
Adaptação: Claudinê Gonçalves

20 janeiro, 2011

A seleção movida a álcool

Fonte: Observatório da Imprensa

Artigo escrito Por Carlos Salgado - Psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead).

O técnico é novo, mas a história é velha conhecida. Mais uma vez assistimos a uma figura da seleção brasileira de futebol ceder sua imagem para a publicidade de bebidas alcoólicas e contribuir para reforçar um conceito cultural distorcido, mas bastante difundido no país, que associa o futebol à cerveja. Nossos técnicos e jogadores de futebol precisam entender que a publicidade é um importante incentivo para o consumo do álcool. E os jovens, apaixonados por futebol e que têm nos gramados ídolos capazes de influenciar comportamentos, são o maior alvo desse tipo de propaganda.
A relação entre os adolescentes e consumo de bebidas alcoólicas no Brasil é alarmante. Os garotos e garotas entre 14 e 17 anos são responsáveis por 6% de todo o consumo anual de álcool no país, ainda que, reza a lei, sejam proibidos de comprá-lo, o que prova nossa fragilidade em cumprir a legislação e deflagra os perigos da experimentação, que acontece cada vez mais cedo.
Essa vulnerabilidade abre caminho para que a publicidade potencialize o consumo desse grupo e nos leva a uma triste perspectiva. Se 90% dos jovens começam com o álcool antes dos 18 anos, o risco de a sociedade deparar com adultos dependentes de bebidas alcoólicas é diretamente proporcional.
Também a embriaguez, o chamado "porre", pode, para muitos, parecer apenas brincadeira da garotada, mas evidencia o sintoma de uma conduta social que inconscientemente aprova o consumo de álcool. Essas crises de ingestão, em muitos casos, estão relacionadas com violência, sexo desprotegido, acidentes e maior risco de dano cerebral, além do evidente risco da fixação do hábito.
Impacto negativo
Esse é um grupo intricado, mas no qual as empresas avistam um "mercado" potencial e, sem as devidas e há muito esperadas medidas restritivas, no qual seguem com maciço investimento. Um estudo recente que analisou 420 horas de programação televisiva, por exemplo, identificou que a maioria das propagandas de bebidas alcoólicas acontece durante programas esportivos, com ao menos 10% de audiência de adolescentes. Não houve nenhum programa esportivo que não tivesse bebidas alcoólicas entre os anúncios.
O risco social é iminente, pois sabemos também que o álcool é apenas a porta de entrada para outras drogas, principalmente as chamadas "drogas leves", como a maconha. Portanto, prevenção para o consumo de drogas é fundamental, mas cairá no vazio se não houver medidas restritivas à publicidade de bebidas alcoólicas.
É necessário combater a ideia de que o futebol é um espetáculo movido a cerveja e que beber é o "esporte" dos jovens. Pelo contrário, a droga amplifica as rivalidades e a tensão entre torcedores apaixonados e em natural oposição, infelizmente facilitando a agressividade. O impacto negativo para a sociedade e para a saúde pública é evidente e lamento que figuras admiradas sejam protagonistas de histórias que não nos dão nenhum selo de qualidade.

19 janeiro, 2011

Procura-se um projeto melhor para lidar com as drogas

Fonte: Folha de Boa Vista

Sociedades no mundo todo estão sofrendo pesados efeitos do abuso de substâncias psicotrópicas, popularmente conhecidas como drogas.

Os efeitos perversos dessa pandemia global afetam diversos setores da sociedade, principalmente a saúde.
É importante não perder de vista: o abuso de drogas é eminentemente uma questão de saúde pública. Drogas lícitas e ilícitas - desavisadas da classificação jurídica que transforma algumas em assunto de polícia e inclui outras na normalidade da lei - afetam de diversas formas a saúde dos seus usuários.

O abuso pode levar a diversos tipos de doenças físicas e psíquicas, desde o câncer de pulmão até as psicoses. As consequências econômicas são diretas, quando as famílias reduzem sua capacidade de consumo e poupança ao desviarem parte de suas rendas para drogas e quando o governo direciona recursos para o tratamento do tabagismo, alcoolismo, drogadição e doenças decorrentes; e indiretas quando a força de trabalho perde dinamismo e iniciativa. Como já disse Freud, em Mal estar na civilização, ao se comprazer na felicidade química, o usuário de drogas arrisca perder um tempo precioso, que, bem usado, permitiria alcançar objetivos em prol de uma felicidade sustentável no longo prazo. As consequências mais trágicas, todavia, são psicossociais, na tristeza das famílias, na marginalização estúpida dos usuários, na violência.
Convém insistir, o presente artigo não é um alerta para uma "batalha contra as drogas" que supostamente estamos "perdendo". Tratar o uso de drogas apenas como um assunto de segurança pública é mais um sintoma do problema. Sua solução exige uma perspectiva menos simplista, menos maniqueísta. Para reverter esse quadro dramático - uma batalha contra as contradições sociais que levam algumas pessoas a abusarem das drogas - faz-se urgente um debate amplo, franco e criterioso.
Amplo, porque é preciso envolver todos os setores da sociedade, desde os usuários e profissionais no assunto, passando pelos políticos, a polícia, os professores, até as mães de família. Todos são em parte culpados e em parte vítimas e, por isso, devem abandonar preconceitos, buscar conhecer com objetividade quais são os efeitos das drogas, quais são os motivos que levam pessoas de todas as idades e classes sociais a se envolverem com elas, até, por fim - após obter-se um diagnóstico melhor do que o atual - propor medidas para combater esse problema.

Franco, porque é preciso deixar de lado o orgulho e a hipocrisia e admitir que o abuso de entorpecentes não é uma consequência da fraqueza moral de determinados indivíduos mal-adaptados ou mal-socializados, mas sim um sintoma da doença social que acomete o mundo contemporâneo. Não é um privilégio de capitalistas ou proletários, religiosos ou agnósticos, brancos ou índios. Existem forças sociais (isto é, forças cuja origem está em estruturas sociais independentes dos indivíduos, como ensinou Durkheim) que afetam algumas pessoas mais suscetíveis. Essa suscetibilidade pode ocorrer por diversos fatores. Essas forças sociais e esses fatores de suscetibilidade devem ser bem entendidos, com objetividade, sem falso moralismo. Também no quesito franqueza, é preciso lembrar que não só as drogas proibidas causam danos: cigarro, álcool e muitos medicamentos provocam dependência química severa, com causas e efeitos muito semelhantes aos relacionados com as drogas proibidas.

Criterioso, porque, para combater seus abusos, é preciso conhecer sobre drogas. É preciso saber que não há mortes causadas por maconha, que a cocaína pode levar à morte por overdose, que a heroína e o crack viciam e matam às vezes em meses e que o cigarro é uma das maiores causas de morte no mundo todo; saber que o risco de tornar-se um dependente de maconha é inferior ao risco de tornar-se dependente de cigarro ou cocaína que, por sua vez, é inferior ao risco de tornar-se dependente de heroína ou crack; saber que a crise de abstinência da nicotina contida no cigarro é comparável àquela provocada pela cocaína, ainda que menor em intensidade; que a maconha não gera sintomas de abstinência química, mas vicia por dependência psicossocial; saber que o uso moderado de álcool, tabaco e maconha pode prestar-se a fins recreativos, não associado ao aumento da criminalidade, ainda que inevitavelmente provoque diversos males à saúde. Essas e outras ideias devem ser testadas cientificamente e seus resultados devem ser divulgados.
À guisa de conclusão: as sociedades no mundo todo estão atônitas diante do abuso de drogas. Ao mesmo tempo, a própria expressão "drogas", genérica demais, é insuficiente para dar conta de um debate público que deve ir às minúcias, tratar cada caso com suas peculiaridades, envolvendo profissionais das áreas da saúde e das ciências sociais. Franqueza e profissionalismo são qualidades importantes para que se pense um projeto melhor para lidar com as drogas, e são requisitos essenciais para tratar com dignidade e respeito a pessoa dos usuários e suas famílias.

João Nackle Urt - Advogado E mestre em Relações Internacionais pela UnB e professor da UFRR

Meu comentário: bom, a ibogaína já está aí há quase 40 anos, mas ninguem se interessa... seria um passo para a solução.

08 janeiro, 2011

Períodos Críticos de Fissura

Durante o processo de recuperação, o Dependente Químico têm fases críticas de fissura, o que leva a redobrar seus cuidados, buscando conter-se, ficando mais aos cuidados da família e de um profissional habilitado.

FASE I – 7 dias de abstinência
Iniciam-se os sintomas desagradáveis da desintoxicação física, podendo causar:
- Irritabilidade
- Confusão mental
- Agitação
- Sonhos

FASE II – 14 dias de abstinência
As reações da dexintoxicação psíquica causam excesso de confiança com sintomas de:
- Desejo de arriscar-se
- Querer encontrar-se com os amigos da ativa
- Frequentar os mesmo lugares de uso de drogas
- Querer fazer o tratamento sozinho, sem ajuda profissional.

FASE III – 21 dias de abstinência
A falta da droga produz crises depressivas e saudades dos momentos de uso com lembrança de prazer:
- Do efeito da droga
- Dos momentos com pessoas
- Lugares onde se usava drogas
- Da rotina do uso.

FASE IV – 36 dias de abstinência
É a fase em que o dependente começa a testar seus limites, podendo muitas vezes ocasionar:
- Lapsos.
- Comportamentos semelhantes aos da ativa, que na maioria das vezes levam o dependente químico a retornar o uso.

FASE V – 60 dias de abstinência
- O dependente quimíco começa a ter rotina. Isso é interpretado como monotonia e que seus esforços não estão sendo reconhecidos, provocando uma sensação desagradável e pensamentos que nada mudou.
- É importante nesta fase iniciar novo grupo de amizade, novas atividades sociais devem ser implementadas.

FASE VI – 90 dias de abstinência
O dependente químico começa a ficar com excesso de confiança, achando que seu problema está resolvido então:
- Faz mau uso do dinheiro.
- Começa a viajar sozinho, não se importando com os perigos que corre praticando os mesmos comportamentos.

FASE VII – 180 dias de abstinência
A busca de qualidade de vida e a necessidade de promover mudanças levam o dependente quimíco a ter dificuldade de lidar com situações afetivas ligadas a:
- Mudanças na maneira de se portar perante outras pessoas.
- Conquistas de trabalho, namoro e estudo.
- Firmar compromissos.

FASE VIII – 1 ano e 6 meses de abstinência
As mudanças até essa fase levam a busca de autonomia e independência. O maior risco que ocorre é o medo de não ser capaz de assumir as responsabilidades conquistadas:
- Grande dificuldade de lidar com fracassos e sucessos.
- Começa a cumprir o que diz e a realizar tarefas e a assumir compromissos.
- Medo de fracasso (mudanças de emprego, relacionamentos, etc)
- Busca estudar, se aperfeiçoar e procura evoluir como ser humano e cidadão.

Fonte: Dra. Cleuza Canan
Leonardo M. Delai

07 janeiro, 2011

Remédio para largar o cigarro induz ao suicídio, dizem usuários

Fabricante do Champix se defende e diz que não há comprovação do problema

O laboratório farmacêutico Pfizer enfrenta nos Estados Unidos centenas de ações na Justiça de usuários do Champix, remédio usado para abandonar o cigarro. A acusação é de que o medicamento provocaria depressão e tendência suicida.

Em comunicado, a Pfizer diz que apenas quando o produto já estava no mercado é que “houve relatos de possíveis alterações psiquiátricas, agitação e pensamentos suicidas em pacientes tentando parar de fumar com o medicamento”.

A empresa diz que não há comprovação entre a relação do uso do Champix e esses problemas, mas, mesmo assim, incluiu alertas sobre o assunto na bula do remédio.

– O abandono do cigarro, com medicamento ou não, pode implicar a ocorrência dos sintomas típicos da síndrome da abstinência, que muitas vezes se confundem com os eventos adversos de medicamentos utilizados para essa finalidade.

Um juiz federal do Estado de Alabama analisa o grande número de ações contra a Pfizer apresentadas por familiares de usuários ou antigos adeptos do Champix. A vareniclina, base do medicamento, é autorizada em mais de 80 países, incluindo Estados Unidos, Brasil e na União Europeia.

O promotor Ernest Cory acusou a Pfizer de negligência por lançar o Champix no mercado americano em 2006, baseado em queixas de usuários sobre "problemas neuropsicológicos", incluindo "suicídios, tentativas de suicídio, desmaios e crises de depressão".

Fonte : R7.com

24 novembro, 2010

A política de descriminalização mostra bons resultados em Portugal

fonte: Scientific American

Interessante artigo da conceituada revista Scientific American, que relata a situação em Portugal, após anos de descriminalização das drogas.

Em 2001 o governo portugues deu um passo ousado: descriminalizou a posse e o uso de heroína, cocaína, maconha, LSD e outras drogas até então ilícitas. A lógica era focar na prevenção e no tratamento, e não no encarceramento dos usuários.

Ao contrário das previsões catastrofistas, a situação não piorou, pelo contrário; as mortes dor overdose diminuiram de 400 para 290 por ano, e os novos casos de HIV relacionados ao uso de seringas e agulhas contaminadas diminuíram de 1400 para 400 por ano.

Alem disso, Portugal tambem não virou um "Paraíso das Drogas" nem um destino turístico para usuários, como temiam alguns.

Estes dados constam de relatório do Cato Institute, de Washington.

Walter Kemp, porta voz do Escritório da ONU para Drogas e Crime afirmou que "a descriminalização das drogas em Portugal atingiu seu objetivo primário, que era reduzir os danos à saúde pelo abuso de drogas".

Já a Casa Branca e o DEA se recusaram a comentar o relatório.

Os Cinco Remédios Mais Lucrativos Do Mundo Não Curam Nada

Os 5 remédios mais lucrativos do mundo tem uma característica em comum interessante, além de serem, como já dito, altamente lucrativos: não curam nada. São medicamentos vendidos a preços altíssimos que controlam sintomas, mas não curam a doença de base... servem perfeitamente aos intentos da grande indústria farmacêutica, que procura TRATAMENTOS, não CURAS. Se os remédios curassem problemas, principalmente os crônicos, isso seria um tiro no pé da indústria... por isso ela produz substâncias que controlam os sintomas mas não curam, com a função de deixar o paciente vivo mais tempo para que possa consumir mais remédio.

1. Lípitor (receita bruta 2009 7,5 bilhões de dólares)
Para baixar colesterol e triglicérides, mas precisa tomar para sempre porque se parar sobe tudo de novo...

2. Nexium (receita bruta 2009 6,3 bilhões de dólares)
Para gastrites, úlceras e refluxo. Diminui a acidez no estômago, mas se parar volta tudo como era antes.

3. Plavix (receita bruta 2009 5,6 bilhões de dólares)
melhora a circulação, "afinando" o sangue... como os outros, só faz efeito enquanto está sendo tomado, é para o resto da vida

4. Advair (receita bruta 2009 4,7 bilhões de dólares)
Para asma e bronquite. Diminui a severidade das crises, mas elas cotinuam ocorrendo.

5. Seroquel (receita bruta 2009 4,2 bilhões de dólares)
Para psicoses, depressões e outros quadros psiquiátricos, e como os outros, apenas controla os sintomas.

É claro que estas medicações são extremamente úteis, melhoram muito a qualidade de vida dos pacientes, isto é indiscutível. Mas que não curam, não curam.

Precisa explicar porque a grande indústria farmacêutica (Big Farma) não tem interesse na ibogaína?

Fora isso, a mesma Big Farma patrocina médicos em viagens, congressos, os suborna com presentes, brindes... quem vai ter interesse em mudar esse estado de coisas? Todos estão ganhando... mas e quantos aos pacientes dependentes? Bom, problema deles, quem mandou usar drogas? Para estes, sobra a opção das internações a preço de resort 7 estrelas, que tambem não resolvem nada. Mas pelo menos os donos de clínicas ganham também...

Pergunte a um psiquiatra a opinião dele sobre a ibogaína... se ele já tiver ouvido falar do assunto, (o que é pouco provável, porque a maioria deles só se atualiza com informações vindas da própria indústria), ele vai ser contra... agora você já sabe porque.

16 novembro, 2010

Pode uma sonoridade funcionar como droga?

Chamam-lhes e-drugs ou drogas digitais. São sons binaurais. Custam entre sete e 150 euros em sites especializados.

Por Ana Cristina Pereira

Escolher ficheiro, pôr auscultadores, accionar. Ouve-se um som diferente em cada lado. Aqueles ruídos comercializam-se na Internet como e-drugs - drogas digitais. Têm nomes sugestivos: Orgasm, Peyote, Marijuana, Cocaine, Opium... Há quem lhes atribua sensações de relaxamento, euforia, transe. Mas pode o som estimular o cérebro ao ponto de causar um efeito semelhante ao de drogas como a cannabis, o ópio, a cocaína ou o LSD?

Abundam descrições em sites da especialidade, como o i-doser. Nome de código "Sweet Lemon" escreveu: "Rebenta com a minha cabeça, não a expande apenas. Acabei agora de experimentar o Peyote e foi esquisito. Finalmente, parei de pensar no que ia acontecer enquanto ouvia [aquela música] e bum. Bateu. Reparei como a linha onde a parede e o tecto se tocam era engraçada. Parei de focar e vi sangue roxo a escorrer pelo canto da minha visão periférica. Olhei para trás e desapareceu e vi a outra parede tornar-se roxa e, depois, as luzes tinham chamas roxas a atravessar o tecto. Vinte minutos de loucura. Experimenta!"

No mesmo fórum sobre os eventuais efeitos das e-drugs, estusiásticas opiniões como aquela convivem com opiniões reticentes ou cépticas. Como esta, nome de código "Kurwik": "Experimentei o Peyote três vezes e nada aconteceu. Senti apenas um pouco de medo. Fora disso, nada. Total perda de dinheiro. Vou tentar algum Ecstasy e Excite. Se não funcionar, adeus, caixote do lixo."

A moda está a apanhar adolescentes em muitos pontos do planeta, à boleia das redes sociais. Encontrámos Nick Ashton, fundador do i-doser, numa delas - no Facebook. Por e-mail, em respostas muitíssimo curtas, o jovem norte-americano assegurou que, desde que foi activada, em 2005, a página foi visitada "por milhões". "A nossa aplicação foi descarregada 1,5 milhões de vezes."

Rituais de iniciação

O fenómeno é novo, mas o princípio não é, adverte Maria do Carmo Carvalho, autora de Culturas Juvenis e Novos Usos de Drogas em Meio Festivo (Campo das Letras, 2007): "Sonoridades em frequências muito baixas, durante um longo período, com cadências muito repetitivas, são usadas ancestralmente para induzir estados alterados de consciência."

A investigadora da Universidade Católica Portuguesa fala em "tribos africanas, que produzem modos de realização da cura associados à espiritualidade". Cita um artigo de Uwe Maas e Suster Strubelt sobre o uso de música nos rituais de iniciação no Gabão: "A música é usada por culturas tradicionais em todo o mundo para criar e acompanhar estados de transe". Analisaram as composições e a sua funcionalidade e escreveram: "Supomos que a música potencia o efeito da droga ibogaína que é usada durante o ritual de iniciação".

Não é preciso ir a África. Basta pensar no transe em que entram alguns crentes durante cerimónias de certas seitas. Sem drogas. "Esses estados de transe acontecem com pessoas que estão predispostas a isso e que têm uma certa susceptibilidade", explica o neurologista João Massano.

"Sweet Lemon" pode estar a dizer a verdade e "Kurwik" pode estar a dizer a verdade também? "Há pessoas que têm uma capacidade invulgar de ouvir determinados sons ou de ver determinadas cores ou formas", torna o investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. "Chamam-se sinestesias. Mas são alucinações muito simples, nada comparáveis às provocadas por drogas químicas."

O neurologista traz à conversa o efeito placebo. O método é muito usado na investigação científica: para se distinguir os efeitos de um fármaco da cura por sugestão, um grupo toma um princípio activo, outro um placebo. "Às vezes, há melhores resultados no grupo do placebo."

Pedimos a um músico para experimentar. Deitado, no escuro, com auscultadores, experimentou o simulador de óxido nitroso. Nada. Experimentou um simulador de "substâncias que se encontram na pele de algumas espécies de sapos". Apesar de mais relaxado, tornou a nada sentir. "Tinha uma série de pensamentos a correr pela cabeça, mas, ao fim e ao cabo, não era muito diferente de quando estou prestes a adormecer." Não desistiu. Experimentou um simulador de LSD. Nada. Experimentou um relaxante. "Era extremamente irritante." Desistiu.

"Não fiz a experiência desconfiado. Estava mesmo com esperança que funcionasse, apesar de duvidar muito de algumas das descrições dos produtos", comenta. Faz uma ressalva. Lembra que só usou downloads ilegais. "Sabe-se lá se este material está corrompido."

"Para alguém sentir os efeitos de uma droga, tem de haver quem lhe explique. Senão, a pessoa que está a experimentar não sabe ler o que está a sentir", sublinha Maria do Carmo Carvalho. E os vendedores de e-drugs sabem-no. Uma curta busca ao YouTube conduz a múltiplos vídeos, algumas com centenas de milhares de pageviews. Há os que ensinam a usar; os que mostram miúdos, de auscultadores, a "consumir"; por baixo, o inevitável debate.

"Acho que temos de ter alguma frieza em analisar isto", adverte João Massano. "Não sei quantos destes relatos [arrebatados] são fabricados. Estive a ver se há testes científicos que comprovem os efeitos e não os encontrei - não há. Nunca grupos independentes fizeram testes científicos a isto. Analisei diversas situações. Numa delas, especifica-se as frequências dos sons utilizados para produzir um efeito. Algumas das frequências referidas não são audíveis pelo ser humano. Isso levou-me a pensar que isto é só um negócio."

"Quantos dos testemunhos serão estratégia de marketing?", questiona o neurologista. Alguém está a ganhar dinheiro com a venda destes sons binaurais. Os preços dos ficheiros oscilam entre sete e 150 euros. Podem descarregar-se alguns de graça. E não falta quem saiba como descarregar alguns ilegalmente.

Parece tudo muito profissional nos sites que vendem sessões de 15 a 30 minutos. Nick Ashton, por exemplo, diz que estiveram "cinco anos" a pesquisar. No site, refere-se que grande parte do tempo foi gasto em testes. Para Nick Ashton, isto é só uma forma "legal" e "sem efeitos secundários" de "simular um estado de espírito ou uma experiência". E isso, para Maria do Carmo Carvalho, é "interessante". Nos contextos festivos juvenis, como o das raves, "a experiência é global". Há os lugares, as músicas, os pares, as drogas. Aqui, a função exclusiva da experiência é alterar a consciência: "Há uma intencionalidade, mas também uma busca de uma estratégia sem riscos".

iPods banidos

Há quem não veja o fenómeno de forma inócua. O Grupo de Narcóticos de Oklahoma já fez saber que teme que este fenómeno leve os adolescentes à experimentação de "outras" drogas. "Os miúdos podem ir a estes sites ver o que se passa e isso pode levá-los a outros sítios", declarou, em jeito de alerta, o porta-voz, Mark Woodward, à News 9, citada pela revista Wired. Uma escola pública da zona está a levar a suposta ameaça tão a sério que mandou uma carta aos pais. Os educadores foram o mais longe que puderam: decidiram banir os iPods da escola. Maria do Carmo Carvalho contesta raciocínios como este. Há muito que se sabe que a teoria da escalada "é um mito".

Os relatos de medos propagam-se, alimentados por pais pouco ou nada familiarizados com as potencialidades da Internet. Já há até quem mencione o eventual risco de disfunções cerebrais. E isso, a João Massano, parece "ficção científica": "Não vejo que isto possa provocar algum efeito neurológico nocivo. Não vejo efeitos secundários, a não ser os muito conhecidos de ouvir música muito alto. Quanto muito, podem queixar-se de fraude."

Notícia corrigida às 13h45, dia 14/11/2010

Fonte : Publico.pt

01 novembro, 2010

Álcool é mais prejudicial para a sociedade que crack e heroína, diz cientista inglês

Estudo leva em conta os danos individuais e às outras pessoas


O álcool foi considerado a droga mais perigosa da Grã-Bretanha, à frente até do crack e da cocaína, segundo um ranking que leva em conta, além dos prejuízos pessoais, os danos que ela pode provocar na sociedade. O estudo, publicado nesta segunda-feira pelo periódico médico Lancet, foi realizado pelo Comitê Científico Independente sobre Drogas, liderado pelo ex-consultor governamental David Nutt.

Nutt foi demitido ano passado após fazer declarações contra a política antidrogas do governo, quando disse que andar de cavalo era mais perigoso que ingerir ecstasy, uma droga sintética bastante consumida na Grã-Bretanha. Também afirmou que a maconha fora promovida à droga classe B, a segunda classe mais perigosa segundo o Conselho Britânico sobre Abuso de Drogas, por causa de uma “decisão política”.

No estudo publicado nesta segunda-feira, Nutt e seus colegas classificam as drogas pelos danos individuais, que vão desde a morte até danos mentais e perda dos relacionamentos, e pelos danos que podem provocar às outras pessoas. A pontuação vai de zero (inofensivo) até 100 (mais perigoso).

No ranking geral, o álcool ficou em primeiro lugar, com 72 pontos — a heroína ficou com 55 pontos, o crack com 54, a cocaína ganhou 27 pontos, a maconha ficou com 20, o ecstasy e os anabolizantes com nove e os cogumelos alucinógenos com cinco. Se levados em conta apenas os danos individuais, as drogas mais perigosas são o crack, a heroína e metanfetamina. A mais danosa aos outros foi o álcool, seguida pela heroína e o crack.

Os autores do estudo escreveram que a classificação atual é ultrapassada e é preciso chamar a atenção de forma agressiva para os perigos do álcool, em prol da saúde pública. Pelo sistema britânico de classificação atual, o ecstasy é considerado uma droga classe A, tão perigoso quanto metanfetamina.

Nutt é autor de outro estudo, publicado também no Lancet em 2007, afirmando que álcool e cigarro eram mais prejudiciais que a maconha e o LSD.


Fontes:
Lancet
Revista Veja

27 outubro, 2010

Relator da ONU sugere que se aumente o acesso à Ibogaína

Numa conferência de imprensa em Nova York na terça-feira, dia 26 de outubro de 2010, na sessão 65 da Assembleia Geral da ONU, um dos principais especialistas da ONU em direitos humanos exigiu um repensar fundamental da política internacional de drogas.

Anand Grover, da India, é o Relator Especial das Nações Unidas sobre o Direito de Todos ao Mais Alto Padrão de Saúde Física e Mental, cujo mandato é derivado do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Ele recomenda substancialmente reformar as leis e as políticas que inibem a prestação de serviços essenciais de saúde aos usuários de drogas, e a lei de execução de iniciativas de revisão em torno do controle de drogas para assegurar o cumprimento das obrigações relativas aos direitos humanos.

Sugeriu tambem alterar a legislação, regulamentos e políticas dos países membros para aumentar o acesso controlado de medicamentos essenciais. (E não apenas as drogas pseudo-efedrina, a metadona, a cannabis, a ibogaína, LSD, etc, mas os locais onde elas são mais necessárias como opções de tratamento, ou seja: as prisões)

O Sr Grover afirma que "A criminalização excessiva e as práticas de aplicação da lei podem também minar iniciativas de promoção da saúde, perpetuar o estigma e os riscos de saúde que aumentam em populações inteiras - não só naqueles que usam drogas."

O relatório é a afirmação mais clara até agora de dentro do sistema das Nações Unidas sobre os danos que as políticas de drogas têm causado e a necessidade de uma mudança fundamental na política de drogas.

O relatório foi bem acolhido pela União Europeia na declaração da UE sobre a criminalidade e as drogas para Assembleia Geral da ONU

Fonte: UN Special Rapporteur on the Right to Health, Report of the Special Rapporteur on the right of everyone to the enjoyment of the highest attainable standard of physical and mental health

LINK

01 outubro, 2010



Folder da Conferência Internacional sobre Ibogaína no tratamento das dependências químicas, organizada pelo Ministério da Saúde da Catalunha, Espanha, e pela ICEERS, uma ONG que visa estimular a pesquisa e o estudo de plantas medicinais. A Conferência contará com a presença dos maiores especialistas no assunto do mundo. O governo espanhol pretende instituir a ibogaína como opção de tratamento como política pública. O evento será dia 15 de outubro próximo.

Aspectos Culturais e Simbólicos do Uso de Enteógenos

author: Jammysson W.

O uso intencional de substâncias psicoativas com o objetivo de se criar estados alterados de consciência é uma prática que existe há milhares de anos. Vários grupos de animais (desde os mais primitivos) usam substâncias psicoativas com a intenção de ficarem "intoxicados".Ex: Manduca quinquemaculata (mariposas) que se "alimentam" das flores de Datura meteloides (planta rica em potentes alcalóides com propriedades psicoativas como a atropina) (Samorini, 2002), javalis e primatas que cavam a terra em busca das raízes do poderoso arbusto eboka (Tabernanthe iboga), planta utilizada nas cerimônias das religiões Bwiti, presentes no Congo e no Gabão (África) (Samorini, 2002; Labate, 2003), etc...
Diferentes povos nos mais variados ecossistemas do planeta praticaram e praticam técnicas as mais diversas para atingirem estas alterações de consciência: jejuns, privações sensoriais, tambores, danças e, não menos importante, drogas. baseado em entrevistas e trabalho de campo em diversas partes do mundo, afirma que a "descoberta" dos efeitos de algumas plantas (Cannabis sp.,Tabernanthe iboga, café, etc) foi realizada através da observação do comportamento de alguns animais sob efeito destes vegetais.
O uso de enteógenos por seres humanos existe há, pelo menos, 50 mil anos Em praticamente todos os cantos da Terra existe ou existiu alguma cultura que usa ou usou estes seres vivos com características especiais para as mais diversas finalidades. Dentre alguns destes podemos citar:
(a) Soma (Supostamente Amanita muscaria), cogumelo paleo-siberiano utilizado por caçadores coletores das tribos Tungue e Koriak na Eurásia (b) Peiote (Lophophora sp.), cacto cultuado pelos Astecas e atualmente pelos índios huicholes do, possuí mais de 55 alcalóides diferentes .(c) Teonanacatl (Psilocybe sp.), cogumelos utilizados ritualmente pelos Maias, Mazatecas e outros grupos indpigenas na região de Oaxaca, México , guatemala e varias outras civilizações antigas.(d) Ololiuqui (Rivea corymbosa, Ipomoea violacea), a trepadeira mágica dos Astecas e Mazatecas, ainda hoje seus descendentes a utilizam com finalidades divinatórias, terapêuticas e mágicas (e) Bangue (Cannabis sativa, C. indica, C. ruderalis), planta que se encontra cultivada em praticamente todo o planeta, seu uso como medicamento, sacramento oupara fins recreativos permeia a história de povos na Índia (os sadhus, ou homens santos), na África (principalmente Etiópia e Serra Leoa), Ásia (usada para fins meditativos no Budismo Tântrico, por exemplo), Américas (tribos indígenas como os Cuna no Panamá, os Cora, Tepehua, e os Tepecanos no México a chamam de Santa Rosa, Rosa Maria, etc, e algumas tribos brasileiras também a utilizam, por exemplo, para fazer roçado, como os Tenetehara do Maranhão) embora o principal psicoativo presente na Cannabis sp. seja o já amplamente conhecido Δ9 -tetrahidrocanabinol, em um recente simpósio (I Simpósio Cannabis sativa L e Substâncias Canabinóides em Medicina, São Paulo, 15 e 16 de abril de 2004 – CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, Dep. De Psicobiologiada UNIFESP/EPM e SENAD Secretaria Nacional Antidrogas) foram relatadas mais de 66 substâncias diferentes presentes na maconha; (F) Paricá, epená, cohoba, yopo, vilca, cébil (Anadenanthera peregrina, A. colubrina, Virola sp.), utilizada por grupos indígenas, por exemplo, na fronteira entre Brasil e Venezuela - os Yanomami - como um pó para inalação (rapé) (g) Jurema (Mimosa hostilis), uma leguminosa que foi utilizada para caçar e guerrear entre os índios do nordeste brasileiros e atualmente é usada, entre outras finalidades, para fins mágicos entre raizeiros e indígenas. (h) Ayahuasca (Banisteriopsis sp. e combinações), seu uso foi relatado entre, pelo menos, 72 grupos indígenas diferentes que habitam, na maioria dos casos, a Amazônia Ocidental. Etc...
Neste pequeno trabalho pretendo realizar uma abordagem cultural e simbólica da importância que estes seres divinos possuem nos diversos contextos em que são utilizados. De uma maneira geral podemos afirmar que estas substâncias estão envolvidas em aspectos mágico-religiosos, embora existam exceções. Não pretendo realizar um estudo minucioso de cada um destes vegetais, mas tentar abordar de uma maneira genérica o importante papel que estes possuem na cosmologia, ordem social, ritos de passagem, rituais de cura e no processo do morrer nas culturas em que são consumidos. Historicamente, estas plantas, consideradas plantas-espíritos ou plantasprofessoras, vêm sendo usadas para diversos fins (finalidades e, respectivamente, citações bibliográficas, não exaustivas):
Reforço da identidade ética, Coesão social, Transmissão de valores culturais , Produção artística, Morte simbólica do ego, Autoconhecimento , Resolução de conflitos sociais, Feitiçaria , Caça, Obtenção de poder político e cósmico , Metamorfosear-se em animais, Divinação, Comunicação com as divindades e aconselhamento pelos espíritos, Atingir estados de , Treinamento do xamã , Indução de sonhos para prever o futuro, Profecias, Telepatia; clarividência, Descobrir o paradeiro de pessoas desaparecidas, Obter visões diagnósticas para a prescrição de remédios, Identificar o inimigo causador do mal ou o agente causador do mal, Analgésico, anti-espasmódico, anti-diurético, anti-reumático, contra picadas de cobra, anti-febre-amarela, Atingir estados de intoxicação, êxtase e periódicos estados prazerosos.
Observando a vasta, mas não exaustiva lista de possibilidades de usos destes agentes, verificamos que o uso de drogas em nossa sociedade (de uma maneira patológica) é a exceção, e não a regra. Pesquisadores respeitados como Abert Hofmann(descobridor do LSD-25) e Giorgio Samorini referem-se a esta atual situação do uso de drogas em nossa cultura como uma desacralização/profanação (Hofmann) ou desculturação (Samorini, 2002). O que estes autores (e tantos outros) afirmam é que o uso destes professores vegetais sempre esteve cercado de ética, moral e regras de conduta ratificadas pelos valores culturais. O antropólogo Edward MacRae (1992) disserta sobre como sanções socioculturais empregadas por grupos que fazem um uso ritualizado de psicoativos são mais eficazes que as leis proibicionistas de grande parte das nações quando comparamos os efeitos sociais do controle e forma de uso destes diferentes pontos de vista. Alberto Groisman (2000), em sua tese de doutorado sobre as igrejas do Santo Daime na Holanda, afirma que, na maioria das vezes, os aspectos socioculturais são mais importantes (e, inclusive, moldam/controlam) nas experiências com psicoativos do que os aspectos psicofarmacológicos. Com estes argumentos – que não são exaustivos – podemos observar e, pelo menos, reavaliar nossa postura perante o atual modelo de relação que temos com os psicoativos em geral e, especialmente, com os enteógenos. Esta atual "guerra contra as drogas" mostra-se, cada vez mais, uma guerra etnocida, como já havia dito o antropólogo Anthony Henman em 1986.

Fonte : Nucleo De Estudos interdisciplinares Sobre Psicoativos

17 setembro, 2010

A Droga que Cura o Vício

Fonte: Revista Galileu, Editora Globo

Reportagem / drogas
Ibogaína: a droga que cura o vício

Da planta iboga é extraída a ibogaína, uma substância psicodélica que faz sonhar por 12 horas e é cada vez mais usada contra a dependência química

Autor : Fausto Salvadori


Deitado numa cama, Wladimir Kosiski, 33 anos, viu, literalmente, sua vida passar como num filme — e descobriu que era um drama ruim. A abertura até prometia: cenas de sua infância e adolescência, o casamento, o emprego como vendedor em uma multinacional em Curitiba (PR), a faculdade, dois filhos... Mas, ao chegar aos 21 anos, o roteiro virava filme B, uma típica história de dependência de drogas, reprisando todos os clichês do gênero. O crack, então, roubava a cena: uma sequência previsível de empregos perdidos, faculdade abandonada e bens vendidos a preço de banana para pagar o vício. E sua carreira de vendedor em multinacional acabou enveredando para a vida de aviãozinho do tráfico em troca de alguns gramas de pedras.

O filme apareceu como uma espécie de sonho acordado durante as 48 horas que Wladimir passou sob o efeito da ibogaína, uma droga psicodélica, em uma clínica no Estado de São Paulo (que prefere não divulgar o nome). Durante esse tempo, ele ficou sonolento, mas plenamente consciente. Viu nítidas as imagens de sua vida, como se fossem projetadas em uma tela de LCD na parede do quarto, logo acima do médico que o observava sobre a cama. Quando o efeito passou, foi a primeira vez em anos que Wladimir acordou sem a fissura, o desejo incontrolável pela fumaça do crack que ataca os dependentes. Nem o desejo, nem as náuseas e nem as dores comuns desse tipo de abstinência apareceram. “Era como se eu nunca tivesse usado droga nenhuma”, diz o hoje administrador de empresas, que passou pelo tratamento e se livrou da dependência em 2007.

A substância que ajudou Wladimir é cada vez mais usada em terapias experimentais contra o vício. De 1962, quando começou a ser testada em dependentes químicos, até 2006, 3.414 pessoas usaram a ibogaína, obtida a partir da raiz de um arbusto africano, a iboga, para fins terapêuticos. Só nos últimos quatro anos, no entanto, 7 mil pessoas passaram pelas terapias, de acordo com dados preliminares de um estudo do Dr. Kenneth Alper, da New York School of Medicine, nos Estados Unidos. O número de tratamentos cresceu tanto que provocou uma escassez da substância, ainda produzida de maneira artesanal, no mundo.

AVAL DA CIÊNCIA> Boa parte dos cientistas torce o nariz diante da ideia de se usar uma fortíssima droga psicodélica para se tratar dependentes químicos. Porém, o crescimento no número de terapias bem-sucedidas e o início de novos estudos deram mais credibilidade à prática. Um deles começou em julho, conduzido pela Associação Multidisciplinar para Pesquisa de Psicodélicos (MAPS, na sigla em inglês), de Santa Cruz, na Califórnia. De acordo com a entidade, trata-se da primeira pesquisa sobre os efeitos de longo prazo da ibogaína na luta contra o vício. O levantamento é feito em cima de usuários de heroína, tratados com a droga por uma clínica do México, a Pangea Biomedics. O interesse dos pesquisadores surgiu após estudos que mostram os benefícios da prática. “Há cada vez mais aceitação por parte da comunidade científica”, afirma Randolph Hencken, diretor de comunicação da MAPS. Os pacientes da Pangea são, em boa parte, americanos que cruzam a fronteira para receber um tratamento considerado ilegal nos EUA (embora a pesquisa seja permitida por lá). A ibogaína também é proibida na Dinamarca, na Bélgica, na Suécia e na Suíça. Já no Gabão, é considerada tesouro nacional. Na África Central, curandeiros usam a raiz em rituais contra as chamadas “doenças do espírito”.

Um deles, da religião Bouiti no Camarões, faz com que o participante coma uma grande quantidade de iboga (que pode chegar a 500 g) enquanto um grupo canta, toca e dança a noite inteira. A cerimônia de três dias pode produzir um coma induzido — o que é entendido como uma viagem ao mundo dos mortos. O objetivo, dizem, é receber revelações, curar doenças ou comunicar-se com aqueles que já morreram. Trabalho da antropóloga paulistana Bia Labate, que estudou a droga, afirma que “acredita-se que os pigmeus tenham descoberto a iboga em tempos imemoriáveis”.

A primeira pesquisa brasileira no assunto está prevista para começar no ano que vem, sob orientação do psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ainda que os resultados sejam positivos, não há chance de cápsulas de ibogaína chegarem às farmácias tão cedo. “Sob estrita supervisão médica, a droga poderia se tornar um medicamento, mas custaria milhões de dólares em estudos e ainda não há investidores para tanto”, diz Hencken.

O EFEITO> Ainda não se sabe exatamente como essa substância atua no combate à dependência, mas dezenas de pesquisas em animais e humanos indicam que age em dois níveis: tanto na química cerebral como na psicologia do dependente. Por um lado, a droga estimula a produção do hormônio GDNF, que promove a regeneração do tecido nervoso e estimula a criação de conexões neuronais. Isso permitiria reparar áreas do cérebro associadas à dependência, além de favorecer a produção de serotonina e dopamina, neurotransmissores responsáveis pelas sensações de bem-estar e prazer. Isso explicaria o desaparecimento da fissura relatado pelos dependentes logo após sair de uma sessão.

Na outra frente, a ibogaína promoveria uma espécie de psicoterapia intensiva ao fazer o paciente enxergar imagens da própria vida enquanto a mente fica lúcida. Estas visões não seriam alucinações, como as imagens de uma viagem de LSD. É como sonhar de olhos abertos, o que ajudaria os dependentes a identificar fatores que os teriam empurrado para as drogas em determinados momentos da vida. Estudos com eletroencefalogramas feitos pela Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, apontaram que ondas cerebrais de um paciente que tomou ibogaína têm o mesmo comportamento daquelas de alguém em REM (a fase do sono em que sonhamos). “O sonho renova a mente e, se no sono comum temos apenas cinco minutos de sonho a cada duas horas, na ibogaína são 12 horas de sonho intensivo”, aponta o gastroenterologista Bruno Daniel Rasmussen Chaves, que estuda o tema desde 1994 e participará da pequisa da Unifesp.

RISCOS> No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que não há restrições legais à ibogaína, mas seu uso como medicamento não está regulamentado. Por isso, os tratamentos são considerados experimentais e as clínicas não fazem propaganda. A importação é feita pelos próprios pacientes, que pagam cerca de R$ 5 mil por uma sessão com o derivado da raiz. Após passar por exames médicos, o dependente ingere as cápsulas, deita-se em uma cama e deixa sua mente navegar pelos efeitos, que podem durar até 72 horas. Durante esse tempo, médicos monitoram o paciente. Vale dizer que a literatura médica registra 12 óbitos associados ao uso de ibogaína nas últimas quatro décadas, provocados por diminuição na frequência cardíaca (o equivalente a uma morte a cada 300 usuários). No entanto, estudos de Deborah Mash, neurologista da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, que já acompanhou o tratamento de cerca de 500 pacientes, apontam que não há registro de morte por ingestão de ibogaína em ambiente hospitalar. É preciso que o paciente chegue “limpo” à sessão. “As mortes registradas ocorreram em tratamentos de fundo de quintal, em que as pessoas fizeram uso concomitante de ibogaína e outras substâncias”, afirma Chaves.

NÃO HÁ FÓRMULA MÁGICA> Estudiosos e pacientes avisam: a droga não é uma poção mágica. Para se livrar da dependência, Wladimir Kosiski aliou o tratamento à psicoterapia e mudança drástica de hábitos. Voltou a trabalhar, a estudar e nunca mais pisou no local onde comprava crack. Não foi isso o que fez o professor Gilberto Luiz Goffi da Costa, 44 anos, que se tratou com ibogaína pela primeira vez em 2005. Viciado em drogas desde os 14 anos, Gilberto já acumulava 18 tratamentos fracassados contra dependência. Volta e meia, dormia nas ruas de Curitiba e praticava roubos para comprar crack: já havia sido preso cinco vezes. Após usar ibogaína, achou que estava curado. “Tive uma sensação de bem-estar, mas é um efeito que se perde depois”, afirma. Estava livre do desejo, mas continuou a frequentar os mesmos ambientes e amigos com quem dividia drogas. Em pouco tempo, foi dominado novamente pelo crack. “A ibogaína retira a fissura, mas a pessoa pode continuar a usar droga mesmo sem vontade, como alguém que estraga um regime por gula, não por fome”, diz Chaves. Gilberto só conseguiu permanecer “limpo” após a terceira vez que se tratou, em 2008, quando aliou a substância a uma troca completa de atitudes, seguindo o método dos Narcóticos Anônimos. Sem consumir drogas há dois anos, hoje dá aulas de línguas e é consultor no tratamento de outros dependentes. Ao contrário da viagem pelo mundo dos mortos em uma sessão dos rituais africanos, a ibogaína ajudou o curitibano, pouco a pouco, a permanecer no mundo dos vivos.

Revista Galileu

02 setembro, 2010

Cannabis Medicinal: Não lemos e não-gostamos?

Por Elisaldo Carlini (*)

Em Maio deste ano foi realizado o Simpósio Internacional: “Por uma Agência Brasileira da Cannabis Medicinal?” sob minha presidência, contando com a participação de cientistas do Brasil, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Holanda, representantes brasileiros de vários órgãos públicos, sociedades científicas e numerosa audiência. Após dois dias de intensas discussões foi aprovado por unanimidade um documento recomendando ao Governo Federal a oficialização da criação da Agência Brasileira da Cannabis Medicinal.

Esperava uma discussão posterior, científica e acalorada, pois sabia de algumas opiniões contrárias à proposta. Entre estas o parecer do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) cujos representantes compareceram apenas para apresentar seu parecer, ausentando-se totalmente, antes e depois, de todo o restante do simpósio.

Esta havendo sim a esperada discussão, veiculada principalmente através da Folha de São Paulo, mas num nível de entristecer. De fato, expressões como – “o dom de iludir”; “Lobby da maconha”; “Maconhabras”; “uma idéia fixa: a legalização das drogas”; “elementos com pretensa respeitabilidade”; “paixão dos lobistas”; “exemplo de indigência intelectual”; “querem maiores facilitações para o consumo”; “travestidos de neurocientistas”; – não se coadunam com a seriedade que deve prevalecer em qualquer discussão científica. Os autores de tais infelizes afirmações certamente não leram a celebre frase de Claude Bernard, o pai da medicina experimental: “em ciência criticar não é sinônimo de denegrir”.

Por outro lado, os contrários ao uso medicinal da maconha utilizaram de argumentos inverídicos (para dizer o mínimo) quando tentam criar uma atmosfera de pânico, desviando o foco da atenção (maconha como medicamento). Assim:

• Legalização da Maconha – O item 6 da carta do Simpósio diz cristalinamente: “o uso clínico dos derivados da Cannabis sativa L ou de seus derivados naturais ou sintéticos não pode ser confundido com o uso recreativo (não-médico) da planta”. Os autores das infelizes frases não leram, portanto, esta resolução.

• “O uso médico esta longe de receber aprovações de órgãos como a Agência FDA dos EUA”, dizem os autores das afirmativas. Ora, um princípio ativo da maconha, o ∆9-THC, esta aprovado como medicamento por esta Agência desde a década de 1990, sendo o produto Marinol® produzido e utilizado nos Estados Unidos, e exportado para vários países há quase 20 anos.

Portanto, os autores de tal afirmativa também não leram nada a respeito. Mas não é só isso, pois a maconha e seus derivados também já têm aprovação para uso médico em países como Canadá, Reino Unido, Holanda e Espanha. A Ministra da Saúde da Espanha chegou a declarar: ao aprovar o seu uso para a Esclerose Múltipla: “O uso terapêutico da cannabis é estudado há anos, por isso existem testes clínicos e evidências científicas de sua utilidade em determinadas doenças”

• Dizem ainda os autores das frases: “O uso terapêutico da maconha não tem comprovação científica. Se recomendado negaria a busca da ciência… por produtos cada vez mais seguros”.

A Dra. Nora Volkow diretora do Instituto Nacional do Abuso de Drogas (NIDA) dos Estados Unidos declarou em Março deste ano a uma revista brasileira “Não existe droga segura”, o que é uma verdade, também para a maconha. Vem daí a necessidade de um médico estudar a relação risco/benefício de qualquer droga que prescreve. Por exemplo, segundo dados do FDA de 1997 a 2005 houve 196 relatos de suspeita de morte coincidente com o uso de antieméticos (uma indicação também aprovada para a maconha). Não houve nenhuma suspeita de morte pelo uso da maconha. Por outro lado a Dra. Valéria declarou também que os canabinóides têm algumas ações terapêuticas úteis como efeito antiemético, aumento do apetite em casos de câncer e AIDS, benefícios analgésicos e em glaucoma.

• A alegação de que “não precisamos que o Governo Federal crie, por meio de Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), uma agência para …..a maconhabras” Primeiramente é preciso esclarecer que a SENAD é uma sigla para Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, conforme já aprovado há mais de três anos; portanto, os autores dos artigos na Folha de São Paulo não leram a respeito. É preciso ainda esclarecer que a SENAD não patrocinou e não auxiliou com qualquer quantia a realização do Simpósio. Por outro lado, por se ausentarem de quase todo o simpósio, não sabem que o solicitado na carta foi a “oficialização” à ONU do nome de Agência Nacional da Cannabis Medicinal; conforme enfatizado pelo INCB, órgão da ONU, em 2009. De fato, as leis necessárias para esta criação já foram aprovadas pela Lei 11.343 de 23/08/2006 e seu Decreto regulamentador nº 5.912 de 27/09/2006.

• “A maconha causa dependência” segundo os autores das frases. Ninguém nega esta propriedade indesejável da maconha, como também ocorre com muitos outros medicamentos. Mais uma vez cabe a análise da relação risco/benefício ao se utilizar os derivados da maconha ou de qualquer outra droga. Teriam os autores da frase opinião semelhante a muitos outros medicamentos que são fortes indutores de dependência como morfina e vários outros opiáceos responsáveis por milhares e milhares de casos desta reação adversa? Pretenderiam eles solicitar proibição de uso clínico destas drogas?

• “Até hoje há pouco estudos controlados, com amostras pequenas” e “o uso de terapêuticos da maconha não tem comprovação científica…” Muita literatura médica precisaria ser lida para permitir afirmativa tão categórica. Existem já dezenas de livros e centenas de artigos científicos publicados sobre as propriedades medicinais da maconha. Por exemplo, em duas extensas revisões recentes (Journal of Ethnopharmacology 105, 1-25, 2006; Cannabinoids 5 (special issue), 1-21, 2010) mais de uma centena de trabalhos científicos são analisados, a maioria deles demonstrando os efeitos que são negados pelos autores das frases. Estas revisões concluem que: “cannabinóides apresentam um interessante potencial terapêutico, principalmente como analgésicos em dor neuropática, estimulante do apetite em moléstias debilitantes (câncer e AIDS) bem como no tratamento da esclerose múltipla”

. Há ainda a salientar que várias sociedades científicas americanas já se posicionaram favoravelmente ao uso médico da maconha tais como: Associação Psiquiátrica Americana, Sociedade de Leucemia e Linfoma dos EUA, American College of Physicians e Associação Médica Americana. Isto sem contar que os Ministérios da Saúde do Canadá, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca e Reino Unido já aprovaram o uso medicinal.

• Segundo os autores das frases os proponentes da Cannabis Medicinal usam a “estratégia de confundir o debate” e “…a confusão fica por conta de a ativistas comprometidos com a causa da legalização”

Ora, esta argumentação poderia bem ser utilizada no sentido oposto, como pareceria ser o caso. Sendo totalmente contrário a qualquer uso da maconha investem contra o seu uso medicinal, parecendo tentar convencer o público de que aprovação do uso médico e legalização seriam a mesma coisa, o que esta longe de ser verdadeiro. É bem possível que um forte sentimento ideológico possa estar por trás da confusão armada, o que seria lamentável. Para continuar uma discussão científica minimamente aceitável dever-se-ia por iniciar a leitura de dois artigos publicados neste ano de 2010, em duas das mais serias e respeitáveis revistas científicas do mundo: “Maconha médica e a Lei” (New England Journal of Medicine 362, 1453-1457, 2010) e “Como a Ideologia modela a evidencia e a política: o que conhecemos sobre o uso da maconha e o que deveríamos fazer?” (Addiction 105, 1326-1330, 2010).

Realmente, sem ler não é possível continuar este debate! Sugiro que todos façam “o dever de casa”, atualizando o seu conhecimento com as leituras de mais artigos científicos recentes.

(*)

E. A. Carlini

• Professor-Titular de Psicofarmacologia – UNIFESP

• Diretor do CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas

• Membro Titular do CONED (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas)

• Membro do Comitê de Peritos sobre Álcool e Drogas OMS (7º mandato)

• Ex-membro do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos (INCB – ONU) (2002-2007)

Meu comentário: situação semelhante à da ibogaína, onde se observa que os maiores críticos são aqueles que menos conhecem a respeito.

09 agosto, 2010



"Parceria para uma América livre de drogas"
-Nós não queremos que as crianças abusem de drogas
-Exceto as nossas (drogas)

Fonte: www.naturalnews.com

23 junho, 2010

Vício em drogas é doença e deve ser tratado com remédios, diz especialista


Nora Volkow é chefe do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA.
Para ela, dependência precisa ser vista como problema crônico do cérebro.

Uma das maiores especialistas em drogas da atualidade esteve em São Paulo na última quarta-feira (24/03/10) e foi enfática ao caracterizar a dependência de substâncias químicas como a cocaína, o cigarro e a bebida: “A dependência é uma doença crônica no cérebro humano.”

Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (Nida) dos EUA, afirma que o vício em substâncias químicas afeta uma região do cérebro chamada córtex orbitofrontal, responsável pela tomada de decisões. “Essas pessoas perdem o livre arbítrio para dizer ‘não’”.

A médica, que estuda nos EUA como a dependência química pode alterar as funções cerebrais, deu uma palestra para cerca de 400 profissionais da saúde na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).




Segundo Nora, há muitas pessoas que julgam os dependentes como pessoas moralmente fracas, e ignoram que elas perderam o controle de suas ações. “Se você está dirigindo um veículo e tenta não atropelar um gato, o freio pode falhar e você não consegue fazer o que quer. É difícil fazer as pessoas acreditarem algo semelhante ocorre com as drogas”, afirma. “Mesmo quando a pessoa tem a melhor das intenções de não tomar a droga, ela perde a cabeça, o ‘freio’ do cérebro não funciona.”

Genética e stress
De acordo com a especialista, os jovens correm um risco maior de se tornar dependentes químicos. “Na infância e na adolescência, o cérebro é muito plástico [fácil de ser ‘modelado’]. isso é bom para o aprendizado, mas ao mesmo tempo ajuda a pessoa a se tornar dependente de drogas.”

Nora aponta que correm mais riscos aqueles que têm predisposição genética para a dependência ou os que vivem sob condições estressantes, como os que não se dão bem com os pais ou com os amigos. Por isso, segundo ela, um dos métodos que funcionam melhor para a prevenção são os programas que estimulam a auto-estima dos adolescentes, como a prática de esportes.

Medicamentos
A diretora do Nida, que é psiquiatra, defende também maior uso de medicamentos para o controle da dependência. Segundo ela, os remédios conseguem ajudar as pessoas a romper o ciclo vicioso que as leva usarem drogas compulsivamente.

“Assim como a hipertensão, a dependência de drogas é crônica e exige cuidado contínuo. Entre os tratamentos que funcionaram bem estão os que foram levados a cabo por cinco anos, e não um ou três meses”, diz.

O psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp concorda com a médica. “Se você parte do princípio que o cérebro está com problemas, uma abordagem apenas psicológica pode deixar a desejar.”

Legalização
Segundo Nora, um dos fatores que leva ao vício é o acesso livre às drogas, e por isso ela é contra a legalização. “Hoje os maiores vícios que temos são álcool e nicotina, não porque são as drogas que causam mais dependência, mas porque são as mais disponíveis. Não é uma questão ideológica. É uma questão epidemiológica.”

Ao mesmo tempo, a psiquiatra diz ser contra encarar o dependente como um criminoso. Ela defende que o estado ofereça tratamento e ao mesmo tempo penalize quem não se submete a ele. “Nos Estados Unidos, médicos dependentes que não seguem o tratamento perdem sua licença para trabalhar”, conta.

Fonte : G1 25/03/10

Meu comentário: apesar desta notícia ser de 3 meses atrás (Março), decidi publicá-la pela ainda atualidade do assunto e pelas valiosas informações que o texto contem.

22 junho, 2010

Consumo de Opiáceos dobrou em 5 anos no Afeganistão, diz ONU

Fonte : Gazeta do Povo

Mães usam fumaça de ópio para acalmar bebês. Afeganistão, Rússia e Irã são os maiores consumidores de opiáceos do mundo

Viciados em drogas com apenas um mês de idade. Mães que acalmam suas crianças soprando fumaça de ópio em seus rostos. Comunidades inteiras dependentes de heroína e com poucas oportunidades de tratamento. O uso de opiáceos como heroína e ópio dobrou no Afeganistão nos últimos cinco anos, informou a Organização das Nações Unidas (ONU) nesta segunda-feira, enquanto centenas de milhares de afegãos usam as drogas para escapar da miséria, da pobreza e da guerra.

Quase 3% dos afegãos com idades entre 15 e 64 anos são viciados em opiáceos, segundo um estudo do escritório da ONU para drogas e crime. A ONU define viciados como usuários regulares.

Isso coloca o Afeganistão, além da Rússia e do Irã, como os três países onde mais se usa opiáceos em todo o mundo, segundo Sarah Waller, funcionária do Escritório para Drogas da ONU em Cabul. Segundo ela, uma pesquisa de 2005 descobriu que cerca de 1,4% dos adultos afegãos eram viciados em opiáceos.

Os dados sugerem que apesar de os Estados Unidos e seus aliados colocarem bilhões de dólares em programas que tentam retirar a economia afegã da ligação com as drogas, ópio e heroína tornaram-se mais presentes na vida dos afegãos comuns. Isso cria uma outra barreira para os esforços internacionais para o combate do comércio de drogas, que ajuda a financiar a insurgência taleban.

"A face humana do problema de drogas no Afeganistão não é vista apenas nas ruas de Moscou, Londres ou Paris. Está nos olhos de seus próprios cidadãos, dependentes principalmente de uma dose diária de ópio e heroína, mas também de maconha, analgésicos e tranquilizantes", disse Antonio Maria Costa, diretor executivo do Escritório da ONU para Drogas e Crime.

O Afeganistão fornece 90% do ópio consumido no mundo, o principal ingrediente da heroína, e é o líder mundial na produção da haxixe. A produção das plantas que dão origem a essas drogas ajuda a financiar os insurgentes e encoraja a corrupção, particularmente no sul, onde o Taleban controla o cultivo de papoula e rotas de contrabando.

O governo afegão e seus apoiadores internacionais têm feito enormes esforços nos últimos anos para desencorajar os agricultores a produzirem papoula e o cultivo caiu 22% no ano passado. Parte da queda deve ter ocorrido por causa dos baixos preços da droga no mercado, mas o governo disse que isso também mostra que a guerra afegã contra as drogas está tendo sucesso. Vinte das 34 província do país foram declaradas livres do cultivo de papoula em 2009.

Ainda assim, cerca de 1 milhão de afegãos - 8% do grupo entre 15 e 64 anos - são usuários regulares de drogas - viciados em opiáceos, bem como em maconha e em tranquilizantes, segundo o relatório, que foi baseado em pesquisas com cerca de 2.500 usuários de drogas, líderes comunitários, professores e médicos.

Em termos de comparação, 0,7% da população no vizinho Paquistão e 0,58% dos norte-americanos com idades entre 15 e 64 anos são usuários regulares de opiáceos, segundo os dados mais recentes da ONU.

Instalações para tratamento são raras no Afeganistão. Apenas 10% dos usuários pesquisados haviam recebido algum tipo de tratamento, embora 90% tenham afirmado que queriam se tratar, segundo a pesquisa.

Em um desses locais, o Centro de Tratamento para Mulheres Sanja Amaj, em Cabul, algumas dezenas de mulheres e crianças recebem cuidados diários. As mulheres esperam em macas para ver os médicos enquanto as crianças passam o dia pintando, brincando e recebendo educação em uma creche.

Quase todas as crianças são viciadas, disse Abdul Bair Ibrahimi, o coordenador de cuidados infantis de Sanja Amaj.

Há uma série de crianças viciadas de 4 e 5 anos. A mais jovem que eles viram tinha um mês de idade.

A Associated Press esteve no centro em fevereiro e conversou com uma mulher de meia-idade que disse ter começado a usar ópio durante o regime do Taleban, que foi encerrado com a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2001.

"Eu perdi meus irmãos durante os confrontos e a vida era insuportável. Meu cunhado usava ópio. Ele me viu chorar e sugeriu que eu experimentasse", disse Shirin Gul. Então, dois anos atrás, um sobrinho viciado em heroína veio morar na casa e ela passou a usar a droga, mais pesada. Gul está no centro de tratamento pela segunda vez, pois teve uma recaída.

Sua filha de 15 anos, Gul Paris, também estava sendo tratada por vício em heroína. Ela disse que começou roubando pequenas porções de sua mãe e de seu irmão. "Eu não sabia se era ruim ou não para mim", disse a menina, sentada com os pés descalços numa cama, usando um vestido azul e um lenço de cabeça lilás. Ela tivera uma recaída dois meses antes, depois que seu irmão voltou a usar a droga.

Segundo o relatório da ONU, o número de usuários regulares de ópio subiu 53%, de 150 mil em 2005 para 230 mil em 2009, enquanto os usuários regulares de heroína mais do que dobraram, de 50 mil para 120 mil. A maior parte do aumento aconteceu no sul do país, onde a maior parte da papoula é cultivada.

Entre 12% e 41% dos recrutas da polícia afegã apresentam resultados positivos para o uso de drogas em centros de treinamento regionais, segundo um relatório do governo dos Estados Unidos divulgado em março. Soldados norte-americanos reclamam que seus colegas afegãos estão algumas vezes "alterados" durante operações militares.

"É uma tragédia nacional", disse Ibrahim Azhaar, vice-ministro afegão de combate aos narcóticos.

O aumento do uso de drogas tem efeitos desestabilizadores em comunidades, segundo líderes comunitários entrevistados para o estudo. Eles dizem que os usuários de droga aumentam a violência, insegurança e roubos em suas áreas. "Tem um efeito devastador no desenvolvimento social do país. Tem um efeito devastador em pessoas que são afetadas pelo vício e tem um efeito maior, multiplicado, sobre o restante do Afeganistão", disse Robert Watkins, o enviado da ONU ao Afeganistão.

Não está claro se o preço internacional do ópio nos últimos anos fez com que os traficantes impulsionassem o uso do produto dentro do país, disse o czar norte-americano de combate às drogas Gil Kerlikowske, que visitou o centro Sanja Amaj em fevereiro.

"Claramente, há uma população viciada em expansão neste país. Não importa para um traficante que as pessoas que estão se viciando sejam pobres", disse Kerlikowske. "Se elas se tornarem viciadas, encontrarão formas de pagar pela droga".