25 junho, 2013

Conselhos antes de fazer um tratamento com Ibogaína

Fonte: ICEERS



Interessado em tomar iboga?

Se você está interessado em participar de uma sessão de iboga para o tratamento da dependência, a psicoterapia ou o crescimento pessoal, há questões muito importantes que você deve estar ciente. Este etnobotânico pode ter um grande potencial terapêutico, se utilizado em condições controladas, assim como alguns riscos se utilizados de modo não profissional. Aqui você encontra informações sobre questões importantes envolvidas no uso da iboga.

Tomando a decisão

Decidindo a tomar iboga

A decisão de tomar a ibogaína deve ser sempre sua, não do seu pai, mãe, marido, esposa ou amigo. É algo sério que pode não ser fácil e requer um difícil trabalho pessoal. A verdadeira motivação deve ser a base para esta decisão. Se não, provavelmente não ocorrerá o resultado que seu parente esperava, o que poderia até mesmo causar culpa e conflito entre o relativo e o indivíduo se a experiência for muito desafiadora.

As questões-chave na tomada de tal decisão são: "Por que eu quero tomar ibogaína? Estou disposto a enfrentar meus aspectos pessoais mais difíceis de uma forma tão drástica?" Há outras alternativas para a ibogaína, seja para o tratamento da dependência, a psicoterapia ou o crescimento pessoal. Alguns podem ser mais eficazes do que outros, alguns mais lentos, outros mais rápidos. A ibogaína é uma ferramenta terapêutica extremamente eficiente, mas sua potência e a experiência induzida pode ser demais para algumas pessoas.

Esteja informado sobre os potenciais riscos e benefícios, critérios de exclusão e efeitos antes de decidir se deseja ou não ir em frente.

Centros de ibogaína

Ao escolher um centro de ibogaína, um programa de psicoterapia ou uma sessão de crescimento pessoal, existem alguns fatores importantes para se levar em conta. Os preços desses programas variam de 300 a 15 mil euros ou mais, e as intervenções, protocolos, ajustes e funcionários variam muito. O preço não deve ser o principal fator para você basear sua decisão. O que é mais importante é a qualificação, as normas de segurança e ética profissional do centro. A desintoxicação de drogas usando a ibogaína é uma intervenção médica, para a qual uma equipe médica (um médico e/ou psiquiatra), é essencial, bem como um psicólogo ou psicoterapeuta. Alguns centros também têm naturopatas, professores de yoga, massagistas, etc, o que é uma grande adição, mas a equipe médica e o apoio psicológico é essencial para garantir uma intervenção segura e eficiente.

Se você está procurando uma sessão de crescimento psicoterápico ou pessoal com a ibogaína, o procedimento médico é menos crítico, portanto, um provedor de ibogaína experiente com um médico de plantão para eventuais eventos adversos na maioria dos casos é suficiente, mas somente se um exame médico foi realizado antes da sessão.

Há também provedores de tratamento fazendo-os em quartos de hotel, apartamentos ou casas, alguns com, outros sem conhecimento médico. Alguns exigem exame médico e psiquiátrico, outros não. Alguns trabalham escondidos em um país onde a ibogaína é ilegal, outros no contexto devidamente regulamentado. Estas sessões podem implicar um risco maior do que os de centros que têm uma equipe médica experiente, mas às vezes não se tem escolha por causa das limitações financeiras ou questões de passaporte, tornando-se impossível viajar para outro país, etc

Há também vendedores on-line da casca da raiz da iboga, extratos de iboga (alcalóides totais - TA, Precursores alcalóides totais - PTA) ou ibogaína HCL. A qualidade e potência de tais produtos variam bastante, e os lotes podem ser misturados com outras substâncias potencialmente perigosas. Alguns oferecem ofertas de tratamento por e-mail ou skype, mas isso não é seguro de jeito nenhum. Tomar a ibogaína sozinho é perigoso. Um provedor experiente presente durante a sessão é crucial.

Como escolher o centro adequado

Outro fator importante é a transparência das pessoas responsáveis pelo centro. É uma obrigação ética dos centros que fazem intervenções médicas mencionar os membros da equipe com seus nomes completos, títulos, formação e experiência no site. Se este não é o caso, não há nenhuma garantia de que o que eles escrevem em seu site é o que você vai encontrar quando você chegar no centro. Alguns centros podem não citar nomes por causa de possíveis implicações legais, ou seja, não está funcionando com a devida licença.

Se eles não te pedirem um exame médico (no mínimo ECG, exame de sangue com o painel de fígado) e psicológico ou psiquiátrico como condição para se inscrever no programa, este deve ser um alerta sobre a responsabilidade dos funcionários. Se contra-indicações surgem nos exames, e os critérios de exclusão não forem respeitados, ocorre um aumento considerável no risco de um evento adverso. No entanto, devido à natureza destrutiva de algumas dependências químicas, determinar se a intervenção é um risco muito grande para você pode ser complexo de se determinar. Muitos tratamentos contra o câncer, por exemplo, têm um risco elevado, mas, como o câncer pode ser uma condição com risco de vida, o paciente é livre para escolher o risco que ele está disposto a tomar para curar o câncer. No caso de dependência grave, este é também o caso. É importante, no entanto, estar consciente sobre os riscos de que um tratamento com a ibogaína pode carregar para o sua saúde. Centros ou pessoas que trabalham com a ibogaína devem sempre ter um protocolo de emergência e estar próximos de um hospital.

Além dos fatores mencionados anteriormente, é aconselhável ter uma conversa ao vivo (skype, telefone ou pessoalmente) com a pessoa responsável pelo centro. A filosofia do centro, a sensibilidade da pessoa e conexão pessoal que você pode sentir vai te atrair mais para um centro ou uma pessoa do que para outra.

Critérios de exclusão e riscos

A ibogaína é uma ferramenta experimental que não passou por ensaios clínicos que desvendaram seus mecanismos exatos da ação e, portanto, há conhecimento limitado sobre seus fatores de risco. Muito ainda está para ser aprendido de futuros estudos científicos, a prática ancestral da Bwiti e o uso atual da ibogaína em centros de tratamento.

Riscos para a saúde física

A maior preocupação dos riscos conhecidos relacionados com a utilização da ibogaína é que ela abaixa a taxa cardíaca (bradicardia) e prolonga o intervalo QT, uma medida do tempo entre o início da onda Q e no final da onda T no ciclo elétrico do coração. Portanto, as pessoas com histórico de ataque cardíaco, sopros cardíacos, arritmias, cirurgia cardíaca ou obesidade grave não devem tomar ibogaína. Um eletrocardiograma é o teste mínimo exigido, mas um ECG de esforço ou 24 horas Holter e ecocardiograma aumentam a possibilidade de detectar anormalidades importantes. A presença de um médico qualificado (de preferência especializado em cardiologia e medicina de emergência) presente durante a sessão para monitorar o coração aumenta a segurança do tratamento de forma significativa.

Outro fator de risco é a embolia pulmonar. Isso acontece quando há a formação de coágulos sanguíneos nas veias, como as que podem ocorrer devido à imobilização durante longas viagens de avião, um acidente de carro, ou de doenças relacionadas com o sangue. Quando estes coágulos do sangue são bombeados através do corpo durante a sessão com a ibogaína, eles podem acabar nos pulmões, onde podem provocar uma embolia com o risco de sufocação. O risco de embolia pulmonar pode ser reduzido fazendo alguns esportes ou exercícios de movimentação depois de longas viagens e não iniciar o tratamento logo no momento da chegada. Indivíduos com problemas de sangramento, coágulos de sangue crônicos ou aquelas pessoas que tenham sido recentemente envolvidos em acidentes que causaram hematomas e hemorragias devem ser excluídos deste tratamento.

Asma, câncer, disfunção cerebelar (por exemplo doença de Meneire e dificuldade em manter o equilíbrio), desmaios crônicos, diabetes, enfisema, epilepsia, doenças do trato gastrointestinal (por exemplo, doença de Crohn, Doença Inflamatória Intestinal), problemas ginecológicos, HIV, AIDS, Hepatite C (se ativa e com enzimas hepáticas 200% acima do normal), problemas renais / doença renal, problemas hepáticos, problemas pulmonares ou doença respiratória, paralisia, gravidez, convulsões, acidente vascular cerebral, problemas de tireóide, tremores, tuberculose e úlceras são contra-indicações na maioria dos lugares, mas alguns centros aceitam as pessoas com certas condições, o que pode aumentar o risco de intervenção.

Outra causa de eventos adversos é a interação da ibogaína com outros medicamentos ou produtos farmacêuticos. Antes de tomar ibogaína, o indivíduo não deve usar a droga pelo período de tempo necessário para que essa seja suficientemente metabolizada. Isto depende da meia-vida da droga e é diferente para cada uma das substâncias. O pessoal do centro de tratamento onde você está indo para tomar ibogaína deve ajudá-lo a diminuir ou parar o uso de drogas e medicamentos sujeitos a receita médica de uma maneira segura. Além disso, substâncias ou alimentos que são discriminadas pelas enzimas CYP 450 2D6 devem ser evitados, pois podem interagir com a ibogaína, potencializando seu efeito de bradicardia e prolongamento do intervalo QT. Há listas disponíveis na internet de tais substâncias. Produtos contendo quinino e toranja pertencem a este grupo, e devem ser evitados antes do tratamento da ibogaína.

Como existem muitos materiais diferentes sobre iboga disponíveis, trabalhar com materiais de potência e composição química desconhecida é outro fator de risco. É importante que a pessoa que administra o tratamento conheça o material que você está a receber de modo que este possa ser doseado corretamente. Você tem o direito de saber quais os materiais que o provedor do tratamento usa, a potência e as doses que você terá.

Riscos para a saúde psicológica

Apesar de alguns centros aceitarem pessoas com transtornos psiquiátricos, como transtorno bipolar, transtorno de personalidade incerta, etc, e alguns relatam melhora de sua condição, mas nada se sabe sobre os efeitos da ibogaína em tais transtornos e os riscos envolvidos. É uma área muito arriscada. Nos distúrbios gerais, psiquiátricos, como os mencionadas acima, assim como as pessoas com esquizofrenia e um histórico de psicose, estão excluídos deste tratamento, porque a ibogaína pode desencadear ou piorar os sintomas. Além disso, a interação com certos medicamentos psiquiátricos pode ser perigoso. O teste psiquiátrico completo e a supervisão de um psiquiatra é importante antes de fazer um tratamento com a ibogaína se você tiver quaisquer condições psiquiátricas, e se você está utilizando medicamentos prescritos.

Além dos riscos psiquiátricos, a ibogaína é um composto psicoativo muito potente que pode induzir uma experiência introspectiva que nem sempre é fácil. Pode surgir severa ansiedade em tais episódios e, em casos mais graves, estados de paranóia. Um provedor experiente pode apoiar o indivíduo em tais casos, e ajudá-lo a superar as difículdades. A preparação adequada com a orientação de um terapeuta pode ajudar muito a ganhar confiança, entrar na experiência com a mentalidade adequada, e estar preparado para eventuais experiências difíceis.

Benefícios

A ibogaína tem sido consistentemente observada em relação a bloquear a síndrome de abstinência de opiáceos aguda com uma única administração em humanos e em grande volume de pesquisas em animais. O tratamento com a ibogaína é seguido por um período de duração variável de reduzido desejo por substâncias múltiplas, incluindo estimulantes, opiatos, benzodiazepinas, álcool e nicotina. A ibogaína foi avaliada como tendo propriedades anti-depressoras após a administração, o que se acredita ser devido a metabólito nor-ibogaína da ibogaína, mas isto nem sempre é o caso. O prazo de semanas ou meses após a administração da ibogaína em que o desejo é reduzido é uma oportunidade extremamente valiosa para um viciado recuperar a perspectiva sobre a sua vida e remodelá-la com o apoio de terapia e orientação adicional. A ibogaína também tem um forte efeito sobre o metabolismo celular, permitindo que o organismo se adapte a um novo estado (por exemplo, no processo de desintoxicação).

A experiência onírica introspectiva após a administração da ibogaína é freqüentemente relatada como sendo profundamente psicoterapêutica. Tradicionalmente, um espelho é colocado em frente aquele que vai iniciar a experiência para que possa olhar para si mesmo. Este é exatamente o que a experiência com a ibogaína proporciona: a confrontação com um trauma passado, com os medos, as responsabilidades, a relação com os pais, filhos, parceiro, etc. Ao enfrentar os obstáculos da vida que podem inibir um crescimento natural ou bom funcionamento da sociedade, a ibogaína pode catalisar uma mudança profunda na vida diária, a direção que você está dando a sua vida, comportamento, dinâmica interpessoal, etc .Por esta mesma razão, a ibogaína também tem sido usada na terapia psicolítica com dose mais baixa.

Preparação

Com a decisão de participar de uma sessão de ibogaína vem o início da preparação. É muito possível que você vá encontrar uma profunda experiência transformadora que poderá ter um impacto drástico na sua vida e irá iniciar mudanças estruturais que podem transformar as coisas de cabeça para baixo. Quanto melhor você estiver preparado quando entrar, mais você vai retirar dela e mais suave o processo será. Tradicionalmente, na experiência com a ibogaína, acredita-se proporcionar um processo de morte e renascimento, em que o iniciado "visita seus ancestrais” e renasce como um adulto ou uma pessoa curada. A experiência com a ibogaína é muitas vezes um processo introspectivo em que se lida com o seu passado, o relacionamento com os pais, traumas, responsabilidade, medos, decisões, etc. Incidindo sobre estes aspectos em sua vida durante o preparo, de preferência com a ajuda de um terapeuta experiente, permitirá que a sessão com a ibogaína catalise esse processo drasticamente.

Preparação psicológica e plano pós-tratamento

As pessoas que têm medo podem fazer exercícios de respiração durante o preparo, o que irá ajudar durante os momentos difíceis da experiência. Respirar profundamente na parte inferior dos pulmões, e incidindo sobre o ritmo da respiração pode acalmar e ajudar não a resistir à experiência, mas a deixa-la fluir.

Em uma minoria dos centros de ibogaína, o programa inclui a terapia motivacional, terapia familiar, ou outras técnicas. Envolver a família ou parceiro neste processo pode aumentar a eficácia da sessão com a ibogaína e ter um impacto benéfico de longa duração em toda a estrutura familiar, especialmente no caso de vício grave onde, muitas vezes, a culpa deteriora o relacionamento com os parentes do indivíduo .

Para chegar a abstinência prolongada em caso de dependência de drogas, é fundamental desenvolver um plano de pós-tratamento com um terapeuta, ou, se você está em um programa de reabilitação de drogas, com os responsáveis no centro. Sem estratégias claras para fazer uma mudança na dinâmica pessoal, profissional e social que foram relacionados ao abuso de drogas, é muito provável que a abstinência não vai durar. A ibogaína abre o que é chamado de uma "janela de oportunidade" por semanas ou meses após a sessão real em que o desejo é significativamente diminuído. É importante usar esse tempo para colocar o plano pós-tratamento em prática.

Preparação física

Outro elemento importante é a preparação física; a experiência com a ibogaína é longa e pode ser pesada, então quanto a melhor condição física de uma pessoa, mais fácil e mais segura a experiência será. Alimentação saudável, suplementos vitamínicos e minerais, sais minerais, especialmente durante os dias antes da sessão, e abundância de líquidos são ideais.

O exercício regular também vai ajudar a melhorar a sua condição. No dia da sessão, você pode beber muita água e bebidas ricas em sais minerais após um café da manhã leve, então você estará bem hidratado antes da sessão. Depois disso, é aconselhável parar de beber por algumas horas antes da sessão, porque chegar ao banheiro pode ser uma tarefa extremamente difícil, devido à ataxia induzida pela ibogaína.

É extremamente importante ser honesto sobre o uso de drogas nos dias antes do tratamento. Medo da abstinência pode ser uma razão para os viciados mentirem sobre a última dosagem preparada por eles antes do tratamento com consequências potencialmente fatais. A abstinência será bloqueada pela ibogaína.

No caso dos opiáceos, a ibogaína é geralmente administrada quando os sinais de abstinência estão chegando.

Alguns centros optam por uma abstinência guiada por um período de tempo antes da administração, no caso de estimulantes. Esta desintoxicação anterior aumenta a segurança da sessão da ibogaína significativamente. No caso de uma dependência grave de álcool ou de benzodiazepinas, o seu uso não pode ser interrompido imediatamente com uma desintoxicação pela ibogaína. Uma apreensão de abstinência aguda pode ser a consequência fatal. O uso de álcool e benzodiazepínicos tem que diminuir antes da ibogaína ser administrada.

A sessão

Durante a administração da ibogaína é importante seguir as orientações do provedor, e se você tiver quaisquer dúvidas, perguntas, medos, etc, avise-o antes do início da sessão. Alguns provedores trabalham com música gravada ou ao vivo, outros com o silêncio. Você pode ter suas dúvidas pessoais sobre a configuração. Uma dose teste é administrada antes da dose completa para ver o quão sensível a pessoa é e para detectar possíveis reações alérgicas. A dose de teste reduz a abstinência de forma significativa na maior parte dos casos. Depois disso vem a dose completa.

A Experiência

A primeira fase é como limpar as pastas e arquivos em um disco rígido de computador. Durante esta fase a pessoa está sempre consciente do fato de que ela tomou ibogaína e do lugar que ela está. Fechando os olhos lhe permitirá ir mais fundo com a experiência, abri-los pode diminui-la. Quando as coisas se tornam muito intensas, isso pode ajudar a se conectar com o mundo exterior por um momento. Respirar profundamente algumas vezes também pode ajudá-lo a relaxar. É importante não mexer a cabeça muito porque isso vai causar náuseas. Algumas pessoas vomitam durante a experiência, mas este nem sempre é o caso.

É importante que exista sempre um provedor com o indivíduo durante a experiência. No caso de um tratamento de desintoxicação de droga, é aconselhável (se possível) ter um médico presente durante toda a experiência. Depois, uma enfermeira experiente pode continuar.

Após a primeira fase terminar, o que dura cerca de 2-8 horas, começa a fase de integração. Agora você pode comer uma fruta e beber alguns líquidos novamente. Para metabolizadores rápidos, as visões podem se extinguir completamente após esta fase; metabolizadores lentos podem continuar a ter visões. Pode parecer que a fase visionária não forneceu qualquer visão ou avanço terapêutico devido ao seu ritmo extremamente rápido, a sobrecarga de informações e a falta de integração emocional. No entanto, embora as visões possam se extinguir, a experiência não terminou, em um processo cognitivo todas essas informações e experiências da primeira fase agora começam a ganhar significado, e revelam perspectivas na segunda fase. Não é necessário nenhum terapeuta para este processo, tal como este pode interferir com ele. Esta integração pode durar cerca de 24 horas e é como a desfragmentação do disco rígido do computador. Quando a noite cai de novo, você ainda pode ter "light trails" em sua visão. Sair para o mundo real ou para a natureza depois dessas 36 horas pode ser uma experiência intensa já que você estará altamente sensível. É importante tentar relaxar, dormir um pouco. Algumas pessoas têm uma menor necessidade de sono após a experiência com a ibogaína, mas não todos.

Ao terminar a sessão

É sábio não chamar a sua família ou parentes antes das 36 horas se passaram para não interferir com o processo. O provedor pode deixá-los saber após a primeira fase que você está indo bem. Nos dias seguintes, você deve descansar, caminhar na natureza, comer uma alimentação saudável, beber muita água e se recuperar. Em caso de graves dependências de drogas como o da metadona, doses de reforço podem ser necessárias durante as semanas seguintes para bloquear eventual abstinência residual.

Integração e Acompanhamento

Após a sessão, é aconselhável continuar o seu processo terapêutico para integrá-lo corretamente e começar a colocar em prática o que você absorveu da sessão. Além disso, no caso da família ou do parceiro estar envolvido no processo de preparação, este deve agora ser continuado na integração e seguir de fase na forma de terapia de família ou, simplesmente, sob a forma de um diálogo com o indivíduo. Se você desenvolveu um plano de cuidados pós-sessão, este deve ser seguido; coisas como deslocalização, indo para uma comunidade terapêutica, assistência social, etc. Alguns centros oferecem um continuo programa de cuidados pós-sessão ou colaboração com uma organização local, mas a maioria deles não .

Nos meses após a sessão, você vai encontrar-se em um processo de re-definição de quem você é, onde você quer ir com a sua vida e as mudanças que você precisa fazer. Durante a ocorrência dos processos subconscientes da experiência, o que você vai experimentar mais tarde, quando você voltar para a sua vida diária. Este é um processo de descoberta e de remodelar a sua relação com o ambiente e com si mesmo. Este processo pode levar meses, então certifique-se que você não tem uma agenda cheia após a sessão.

Recaída

Se você decidir voltar a usar a droga, por qualquer razão, tenha cuidado com a dosagem. Sua tolerância será muito menor e sua dose regular pode ser uma overdose. Se ocorrer uma recaída, isso não necessariamente significa que todo o processo tenha sido para nada, porque observando o porque da recaída ter acontecido pode te ensinar aprender com ela e voltar ao caminho correto. Em contraste com a terapia de substituição, tais como programas de metadona, a ibogaína capacita o indivíduo a assumir o controle sobre sua própria vida novamente. Algumas pessoas fazem uma segunda sessão de ibogaína meses mais tarde para continuar o processo de recuperação.

Há também relatos de pessoas participando de sessões de ayahuasca durante o processo de preparação alguns meses antes e meses depois da sessão de ibogaína, potencialmente, complementando o processo terapêutico. Você encontra mais informações para as pessoas interessadas em tomar ayahuasca aqui.

Meu comentário: esse texto é apenas uma repetição do que sempre digo, tratamento com ibogaína é um procedimento médico, deve ser sempre feito sob supervisão médica. Assim se evitam muitas complicações. 

Cuidado com espertinhos tentando lucrar em cima do sofrimento alheio!!!

16 junho, 2013

O problema está na jaula


Denis Russo Burgierman

Fonte: Superinteressante

3 de junho de 2013
As leis que temos hoje proibindo as drogas foram em grande parte inspiradas por pesquisas científicas realizadas nos Estados Unidos na década de 1960 com ratinhos presos em gaiolas. Cada ratinho ficava trancado sozinho em uma jaula pequena, com um canudo preso a uma veia. A cada vez que o bicho puxava uma alavanca, uma dose de morfina, heroína ou cocaína era despejada em sua corrente sanguínea. Os resultados eram assustadores: a maioria dos animais se afundava nas drogas. Alguns passavam o dia inteiro puxando as alavancas e ficavam tão viciados que se esqueciam de comer e beber e acabavam morrendo de fome. Conclusão: drogas são substâncias mortíferas, que causam dependência severa e matam.
Bom, se ratinhos saudáveis transformam-se em zumbis com uma dose, o mesmo deve acontecer com humanos, certo? Melhor então proibir tudo e punir severamente os infratores, para evitar que meninos e meninas tenham o mesmo destino desses pobres roedores. É essa a lógica da política de Guerra às Drogas.
Aí, no final dos anos 70, um psicólogo canadense chamado Bruce Alexander teve uma ideia. Ele resolveu repetir o experimento, mas, em vez de trancar as cobaias numa solitária, construiu um parque de diversões para os bichinhos – o Rat Park. Tratava-se de uma área grande, 200 vezes maior do que uma jaula, cheia de brinquedos, túneis, perfumes, cores e, o mais importante, habitada por 16 ratinhos albinos. Ratos brancos, como humanos, são seres sociais – adoram brincar uns com os outros. Eles são muito mais felizes em grupo. Outros 16 ratinhos tiveram sorte pior – foram trancados nas jaulas tradicionais, sem companhia nem distração. Ambos os grupos tinham acesso livre a dois bebedores – um jorrando água e o outro, morfina.

O Rat Park
Os ratos engaiolados fizeram o que se esperava deles: drogaram-se até morrer. Mas os do Rat Park não. A maioria deles ignorou a morfina. Podendo escolher entre morfina e água, os ratinhos do parque no geral preferiam água. Mesmo quando os ratos do Rat Park eram forçados a consumir morfina até virarem dependentes, eles tendiam a largar o hábito assim que podiam. O consumo da droga entre eles foi 19 vezes menor do que entre os ratinhos enjaulados.
Ou seja, o problema não é a droga: é a jaula. O que é irônico considerando que nossa política de drogas tem como premissa justamente enjaular na cadeia os dependentes.
Hoje entende-se bem como funciona a química da dependência no cérebro. O centro da questão é um químico chamado dopamina, o principal neurotransmissor do nosso sistema de recompensa. Quando animais sociais ficam isolados e sem estímulos, seus cérebros secam de dopamina. Resultado: um apetite enorme e insaciável pela substância. Drogas – todas elas – têm o poder de aumentar os níveis de dopamina no cérebro, aliviando essa fissura. O nome disso é dependência.
Ou seja, não é a droga que causa dependência – é a combinação da droga com uma predisposição. E o único jeito de curar dependência é curar essa predisposição: dando a esse sujeito uma vida melhor, como Bruce Alexander fez com os ratinhos do Rat Park.
Hoje a maioria dos países desenvolvidos entendeu isso e criou políticas públicas de cuidado e acolhimento para resolver o problema da droga. O melhor exemplo disso é Portugal, que há apenas dez anos vivia uma emergência pública com um surto de dependência em heroína, e hoje é considerado inspiração para o mundo em termos de políticas de drogas bem sucedidas. O que Portugal fez foi abrir consultórios nas cracolândias de lá, com um atendimento de boa qualidade, que trata os dependentes com respeito, tenta enriquecer suas vidas, estimula o convívio social, incentiva-os a buscar ajuda, oferece a eles ambientes tranquilos, acolhedores. Os resultados foram espetaculares.
Mas, enquanto o mundo muda em resposta às novas descobertas científicas, o Brasil continua endurecendo suas leis. Em vez de buscar inspiração em Portugal, copia experiências das ditaduras da Ásia, com cadeia, imposição de tratamento, até mesmo conversão forçada a certas igrejas, que recebem dinheiro público para “tratar” drogados usando a Bíblia. Um político paulista disse que sua estratégia para resolver o problema na cracolândia era causar “dor e sofrimento” para expulsar os dependentes de lá – ou seja, aumentar o estresse. É justamente a receita para matar ratinhos. E para aumentar o consumo de drogas.

Clique aqui para ler uma história em quadrinhos que conta a história do Rat Park (em inglês)

Meu comentário: bem, isso mostra como o encarceramento, as internações involuntárias, e a violência, apenas pioram o problema.

13 junho, 2013

O problema não está no Crack, está na alma

Denis Russo Burgierman

Fonte: Superinteressante

De cada 100 pessoas que experimentam crack, algo em torno de 20 tornam-se dependentes. É um número assustador, preocupante, claro, mas é importante notar uma coisa: é a minoria. O crack é mais viciante que a maconha (9%), menos do que o tabaco (32%, a taxa mais alta entre as drogas). Mas a grande questão é a seguinte: o que faz com que algumas pessoas que experimentam as drogas fiquem dependentes e outras não?
Segundo o médico húngaro-canadense Gabor Maté, a resposta é simples: as pessoas que se afundam nas drogas são as mais frágeis. Gabor é um dos especialistas mais respeitados do mundo em dependência e esteve no Brasil esta semana. Sua palestra, no Congresso Internacional sobre Drogas que aconteceu no fim de semana em Brasília, foi imensamente esclarecedora.
“Em 20 anos trabalhando com usuários em Vancouver, eu nunca conheci nenhum dependente que não tivesse sofrido algum tipo de abuso na infância – abuso sexual ou algum trauma emocional muito grave”, ele disse. Ou seja: dependentes de drogas são sempre pessoas com fragilidades emocionais causadas por traumas na infância.
O momento mais polêmico da palestra foi quando ele afirmou algo que ninguém esperava ouvir: “drogas não causam dependência”. Como assim não causam? E aquele bando de gente esfarrapada no centro da cidade? Ele explica: “a dependência não reside na droga – ela reside na alma”. É que quem sofreu abusos severos na infância acaba tendo sua química cerebral alterada e cresce com um eterno vazio na alma. Frequentemente esse vazio acaba sendo preenchido com alguma dependência. “Pode ser uma droga, ou qualquer outro comportamento que traga algum alívio, ainda que temporário: compras, sexo, jogo, comida, religião, internet.”
A cura para a dependência, portanto, não é a destruição da droga: é o preenchimento do vazio na alma. Gabor, aliás, sabe muito bem do que está falando. Ele próprio, afinal, sente esse vazio. Ele nasceu em Budapeste em 1944, durante a ocupação nazista, com a mãe deprimida, o pai preso num campo de trabalhos forçados, os avós assassinados pelos alemães. Quando cresceu, para aliviar a dor emocional que sentia, desenvolveu uma dependência: “virei um comprador compulsivo”.
O sofrimento que Gabor sente está óbvio em seu rosto: nos seus traços trágicos, nos olhos tristes. Mas ele encontrou paz: seu trabalho ajudando dependentes lhe trouxe sentido na vida e esse sentido preencheu, ao menos em parte, o vazio.

Em resumo: crianças que foram muito mal-tratadas acabam virando adultos “viciados”. E aí o que nossa sociedade faz? Trata mal essas pessoas. “Nós punimos as mesmas crianças que falhamos em proteger”, diz Gabor.
Na semana passada, uma pesquisa do Datafolha mostrou que o maior medo dos paulistanos é o de perder seus filhos para as drogas. É um medo compreensível e do qual eu, como um quase pai (minha primeira filha nasce no mês que vem), compartilho. Mas esse medo não pode justificar políticas repressivas e violentas, que impõem tratamento religioso forçado e dá poder ilimitado à polícia. Isso só vai aumentar o estresse na vida de gente que já é frágil – e é sabido que estresse piora a dependência.
Hoje já está claro que o único jeito de lidar com gente que tem um vazio na alma é com compaixão. O que essas pessoas precisam não é de cadeia nem de conversão forçada nem de projetos de lei medievais como o que está tramitando agora no Congresso, com apoio do governo federal – é de compreensão e de ajuda para encontrar algo que ajude a dar sentido para as suas vidas.
Em 2000, uma pesquisa em Portugal revelou que as drogas eram o maior problema do país. No ano seguinte, o governo português teve a coragem de montar um novo sistema, muito mais barato para o contribuinte, comandado pelo ministério da saúde, sem internações compulsórias nem violência policial.
Ano retrasado, a pesquisa foi repetida e drogas nem apareceram na lista dos dez maiores problemas portugueses. O problema havia sido resolvido. Com compaixão.

27 fevereiro, 2013



O Centro Internacional para Educação, Pesquisa & Serviço em Etnobotânica (ICEERS) é uma organização filantrópica dedicada a:

1) A integração da Ayahuasca, Iboga e outras plantas tradicionais como ferramentas terapêuticas na sociedade moderna.
2) A preservação das culturas indígenas que vem utilizando estas espécies de plantas desde a antiquidade, de seu habitat e dos seus recursos botânicos.

A ICEERS dedica-se a mesclar as forças do conhecimento etnobotânico dos povos indígenas e a moderna prática terapêutica, respondendo à urgente necessidade de ferramentas eficientes para o desenvolvimento pessoal e social.

Sugiro uma visita ao site da ICEERS

Eles tem textos em ingles e espanhol, com ótimo nível científico, respondendo várias dúvidas sobre ibogaína e ayahuasca, tratamento de dependência química com ibogaína, e assuntos correlatos. 


18 janeiro, 2013

Pensando em tomar ibogaína? Leia isto primeiro

Postagem do ano passado, mas republicada pois é de grande interesse

Existem muitas pessoas que, por ouvir relatos de conhecidos, por pesquisas na internet e por indicação de profissionais da área, resolvem fazer um tratamento com ibogaína. Mas como saber, nessa situação, que o tratamento que está sendo oferecido é de boa qualidade? Que as pessoas envolvidas são corretas e sabem com o que estão lidando? Isso é um problema sério, pois infelizmente nos ultimos meses tem aparecido uma boa quantidade de pessoas, principalmente na internet, oferecendo ou o tratamento com ibogaína ou a substância em si. Então listei abaixo algumas dicas que podem tornar sua decisão mais confiável, e o mais importante, livre de riscos. Para seu bolso e para sua saúde.

O primeiro ponto é, que tipo de ibogaína tomar? Existem as opções de HCL, TA (total alkaloids) e RB (root bark, que é a raiz "in natura"). Em um contexto médico, para tratamentos, o ideal é a ibogaína HCL GMP, ou seja, ibogaína medicinal, o remédio mesmo, com 98 a 99% de pureza, fabricada segundo as boas práticas de manufatura farmacêutica, o que garante essa pureza e a qualidade da substância.

Existe muita pouca quantidade de ibogaína medicinal disponível e o laboratório fabricante NÃO vende pela internet, então aqui vai o primeiro conselho: não compre ibogaína pela internet, você não saberá o que está comprando, pode ser de péssima qualidade ou nem mesmo ser a substância. Isso se entregarem alguma coisa, porque esse pessoal normalmente pede o dinheiro adiantado e não envia a compra. A principal fonte desses golpes é Camarões, mas infelizmente no Brasil eles existem tambem.

A medicação é mesmo cara, então fique atento, lugares que oferecem tratamentos/medicamentos muito baratos não estão oferecendo medicação de boa qualidade.

Segundo ponto importante : onde tomar?
O tratamento para dependência química com ibogaína é considerado um procedimento médico, e como tal, deve ser realizado em ambiente hospitalar e/ou que tenha recursos de hospital. Isso inclui, principalmente, a presença de um profissional médico com experiência no assunto, visto que o simples fato da pessoa ser formada em medicina não lhe gabarita a fazer essa aplicação. É preciso experiência na área, visto que no curso tradicional de medicina nem se toca nesse assunto. Isso é fundamental para a segurança do paciente. Procure tratamentos que ofereçam acompanhamento médico especializado.

Evite lugares onde o tratamento é feito por não médicos, por curiosos, interessados em ganhar um dinheiro em cima do sofrimento dos pacientes. Evite pessoas não experientes (peça que o profissional comprove a experiência, não basta só falar que é experiente). Muitas vezes o que se alega é que são utilizadas doses baixas, o que dispensaria a necessidade da presença do médico. Isso não é verdade. A presença do médico é fundamental SEMPRE, independente da dose.

Clinicas que fazem propaganda disseminada pela internet (Twitter/Youtube/Sites de comércio eletrônico) tambem não são recomendadas, esse comportamento mostra que o que se visa é o lucro, não exatamente o bem estar do paciente.

Existem anuncios na internet de clínicas que de maneira mentirosa se dizem tradicionais e pioneiras na área, quando na verdade trabalham no ramo há poucos meses e veem no tratamento apenas a chance de lucrar, sem saber realmente exatamente o que estão fazendo.Não fazem exames clínicos nem laboratoriais nos pacientes, não avaliam se eventuais medicamentos que o paciente possa estar tomando interferem na aplicação da ibogaína...Chegam a oferecer que o tratamento seja realizado em casa!!!
Existem infelizmente muitos espertinhos visando apenas lucro nessa área, muito cuidado. Tanto se visa o lucro que estão sendo abertas até franquias dessas clínicas, e as mesmas estão fabricando até shampoo de ibogaína, para se ter uma idéia do nível que chega a coisa.Ou seja, vêm a doença dos outros como fonte de lucro apenas.


Cuidados antes da experiência:
Exatamente por ser uma medicação de efeito forte, com vários efeitos colaterais, é preciso uma avaliação clínica adequada do paciente antes do tratamento, a realização de exames médicos e laboratoriais, orientação quanto a eventuais medicamentos que a pessoa possa estar tomando, avaliação psicológica/psiquiátrica prévia e o compromisso de acompanhamento psicológico pós tratamento. Evite lugarem que oferecem soluções mágicas e rápidas, sem preparação pré-tratamento, e sem orientação para acompanhamento pós.

Concluindo:
Qualquer tratamento médico tem um risco inerente ao procedimento; estas orientações visam eliminar os riscos oriundos de tratamentos feitos por pessoas sem competência, com medicação de má qualidade, em ambientes não adequados.
Boa Sorte!!

Desmistificando a Ibogaína

Estou republicando o texto abaixo, pois o mesmo foi publicado neste blog originalmente em Fevereiro de 2010, e alguns leitores estão tendo dificuldade para encontrá-lo nos arquivos

Desmistificando a Ibogaína
Muito se tem falado a respeito da Ibogaína aqui no Brasil nos últimos tempos... bem e mal, com discussões apaixonadas, e, às vezes, desprovidas de cunho científico e repletas de preconceito.

Para quem não sabe, Ibogaína é uma substância extraída da planta Tabernanthe iboga, originária do Gabão, e planta sagrada utilizada nos rituais da religião Bwiti, religião e rituais estes existentes desde a pré-história. Em 1962 Howard Lotsof, na época dependente de heroína, descobriu que uma única dose de Ibogaína foi suficiente para curar a dependência sua e de alguns amigos. A partir daí surgiu com força uma rede internacional de provedores de tratamentos para dependência em todo o mundo, alguns oficiais, outros underground. Desde essa época até hoje cerca de 15.000 pessoas já fizeram o uso médico da substância, com resultados, em sua maioria, muito bons. Realmente os efeitos são surpreendentes, e, em muitos casos, ocorre uma melhora do quadro de dependência significativa, em apenas 24 horas.

Como tudo que é diferente, e como tudo que é inovador, existem também em relação à Ibogaína controvérsias e dúvidas, que tem origem na desinformação e no preconceito, e algumas vezes também em interesses econômicos. Este texto visa esclarecer as dúvidas e orientar as pessoas sobre o assunto. É interessante o fato de que a maioria das pessoas que é contra esse tratamento, não sabe absolutamente nada a respeito, mesmo alguns sendo renomados profissionais da área. É o estilo “não li e não gostei”. Na área da dependência química no Brasil, alguns egos são imensos.

Sempre que se fala de Ibogaína, cita-se o fato de a mesma ser proibida nos Estados Unidos e em mais 3 ou 4 países, sendo em todos os outros (inclusive no Brasil) isso não ocorre. Pelo contrário, o Brasil é um dos pioneiros nesse tratamento e os profissionais envolvidos, apesar de pouco conhecidos aqui, têm reconhecimento internacional. Essa proibição da Ibogaína em poucos países deve-se à desinformação e a interesses econômicos e políticos.

Primeiramente, essa medicação não interessa à grande indústria farmacêutica, visto ser derivada de plantas, com a patente de 1962 já expirada, tendo, portanto, um baixo potencial de lucro.

Alem disso, em muitos locais, o preconceito contra os dependentes faz com que eles sejam vistos como pessoas que não merecem serem tratadas e sim presas ou escorraçadas. Assim sendo, o fato da Ibogaína ter sido descoberta por um dependente químico, para algumas pessoas, já a desqualifica.

Fora isso, o falso conceito de que a planta é alucinógena, gera uma quase histeria em determinados profissionais da área, que mal informados, com má vontade, e baseados em informações conflitantes pinçadas na internet, repassam informações errôneas adiante. A Ibogaína não é exatamente alucinógena, é onirofrênica, (Naranjo, 1974; Goutarel, Gollnhofer, and Sillans 1993), ou talvez seja melhor dizer, remogênica, ela estimula a mente de maneira a fazer com que o cérebro sonhe, mesmo com a pessoa acordada. Isso é comprovado por inúmeros estudos ao redor do mundo, mas é fácil confirmar, basta fazer um eletroencefalograma (EEG) durante o efeito da substância pra se ver que o padrão que vai aparecer é o do sono REM, não de alucinações. Alem disso, a ibogaína não se liga ao receptor 5HT 2a, o alvo clássico de alucinógenos como LSD, por exemplo.

Outra crítica relacionada à Ibogaína, que é sempre citada, são as até agora 14 mortes que ocorreram, em 48 anos, como comentado acima, em cerca de 15000 tratamentos realizados. Isso dá menos de 1 fatalidade em cada 1000 tratamentos, número muito menor por exemplo do que as fatalidades provocadas por metadona, que é outra substância utilizada no tratamento da adicção, e que é de 1 fatalidade para cada 350 tratamentos.
O detalhe, sempre deixado de lado pelos detratores da Ibogaína, é que em todos os casos de fatalidades registrados, comprovadamente se detectou o uso sub-reptício concomitante de heroína, cocaína e/ou álcool, confirmado por necropsia, o que nos leva à conclusão de que não existem fatalidades relacionadas à Ibogaína e sim à heroína/cocaína/álcool e à mistura dessas substâncias... além disso, poucas coisas no mundo são mais mortais do que usar drogas.. isso sim é perigoso.

Mais outra crítica é sobre o uso em humanos, sendo que no Gabão, há 5000 anos humanos já usam a substância em seus rituais, sem problemas. Já foram feitos vários trabalhos científicos, por cientistas renomados, que comprovam a baixa toxicidade e a segurança do tratamento, desde que feito dentro dos protocolos.

A taxa média de eficácia da Ibogaína para tratamento da dependência de crack é de 70 a 80%, que é altíssima, principalmente se lembrarmos que, além de ser uma doença gravíssima, as taxas de sucesso dos tratamentos tradicionais é de 5%. Incrivelmente, essa taxa de 80% também é alvo de críticas... Porque não são 100%, eles dizem? Já que é tão bom, porque não cura todo mundo? Ora, nenhum tratamento médico é 100%, existem variáveis ponderáveis e imponderáveis que influenciam a evolução dos pacientes, como motivação, características individuais de cada paciente, preparação adequada, com psicoterapia pré e pós tratamento de alto nível, tudo isso faz com que haja variações na eficácia. O fato é que a Ibogaína é hoje, de longe, o tratamento mais eficaz contra a dependência que se tem notícia, em toda a história da humanidade. Feito com os cuidados necessários, é seguro, eficaz, e não existem relatos de seqüelas, nem físicas, nem psicológicas.

Assim sendo, pessoas que vivem da cronicidade da doença, para as quais não interessa que haja cura e sim perpetuação do quadro, e assim, indiretamente, perpetuação dos lucros, se insurgem contra ela.

Em toda a história da humanidade, as inovações, as mudanças de paradigma, sempre foram combatidas.

E apenas mais um detalhe: as outras opções de tratamento, são bastante ineficazes, para que se possa dar ao luxo de não dar à ibogaína a atenção que ela merece.

Postado em 20/02/2010
Atualizado em 08/12/2010, em 17/06/2011,em 07/07/2011 e em 18/01/2013

Entrevista Dartiu Xavier: "A internação compulsória é sistema de isolamento social, não de tratamento"

Interessante entrevista do Prof. Dr. Dartiu Silveira Xavier, um dos mais lúcidos estudiosos de dependência química no Brasil. Desmistifica essa criação da mídia que é a "epidemia de crack" e explica de maneira facilmente compreensível o equívoco que é a internação compulsória ou involuntária.

 

Entrevista Dartiu Xavier: "A internação compulsória é sistema de isolamento social, não de tratamento"

 Psiquiatra discute o tratamento para usuários de crack, a atuação do Estado junto a jovens usuários de drogas em situação de rua e a internação compulsória.

A demonização do crack e uma suposta epidemia que estaria se espalhando pelo Brasil tem progressivamente tomado conta da imprensa e dos discursos dos políticos, como bem ilustrou a disputa eleitoral presidencial no final do ano passado. Assim, um imaginário social mais baseado em medo que em informações tem sido usado para justificar uma série de políticas polêmicas por parte do Estado no já questionável "combate ao crack", normalmente amparado por forças repressivas. Desde o dia 30 de maio, a Secretaria Municipal de Assistência Social da Prefeitura do Rio de Janeiro tem colocado em prática o sistema de internação compulsória para crianças e adolescentes menores de idade usuários de crack em situação em rua. Os jovens são internados em abrigos onde são forçados a receber tratamento psiquiátrico. Atualmente, há cerca de 85 meninos e meninas que já foram recolhidos (contra a vontade) das ruas cariocas.

O modelo tem sido contestado por uma série de organizações sociais ligadas às áreas da assistência social, do direito, da luta antimanicomial, dos direitos humanos, entre outras, que veem na suposta defesa da saúde pública um disfarce para interesses econômicos e políticos ligados à higienização, especulação imobiliária e lobby de clínicas particulares. Em manifesto, a subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acusa a Secretaria de Assistência Social do Rio de Janeiro de atuar como uma "agência de repressão, prestando-se à segregação e aumentando a apartação social que deveria reduzir, desconsiderando inclusive que o enfrentamento da fome é determinante no combate ao uso do crack, em especial da população de rua". O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) tampouco se mostrou satisfeito com a medida, que entende como inconstitucional. O Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) classificou as ações como "práticas punitivas" e "higienistas", em uma postura segregadora que nega o "direito à cidadania, em total desrespeito aos direitos arduamente conquistados na Constituição Federal, contemplados no Estatuto da Criança e do Adolescente – (ECA), no Sistema Único da Saúde – (SUS) e no Sistema Único da Assistência Social – (SUAS)".
Respondendo à acusação de inconstitucionalidade, os defensores e idealizadores da medida atestam que na Lei 10.216, que trata de saúde mental, estão preconizados os três tipos de internação: voluntária, involuntária (sem o consentimento ou contra a vontade do paciente, com aval da família e laudo médico) e compulsória (com recomendação médica e imposição judicial). Já os que se posicionam contra alegam que, na prática, ao invés da ordem de internação compulsória ser impetrada por um juiz após análise de cada caso e com um laudo médico, ela está sendo determinada pelo Poder Executivo, de forma massificada e antes da adoção de outras medidas extra-hospitalares.
O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (ex-DEM, quase PSD) já afirmou que vê com bons olhos a ideia de implementar modelo semelhante na capital paulista, especialmente na região central da cidade, nas chamadas "cracolândias". O Ministério Público já foi procurado pela prefeitura para assumir um posicionamento acerca da possibilidade, mas declarou que ainda está aguardando um projeto oficial impresso.
O Estado deve se fazer presente para esses jovens em situação de rua? Se sim, de que forma? O fato de serem menores de idade e/ou usuários de drogas lhes tira a capacidade de discernimento? É efetivo o tratamento feito contra a vontade do paciente? Que outros tipos de procedimentos podem ser adotados? No intuito de ajudar a responder essas e outras perguntas, a Caros Amigos conversou com o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e diretor do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), onde trabalha com dependentes químicos há 24 anos.


Caros Amigos - A internação compulsória não faz parte de nenhuma política pública, certo? Quando que esse dispositivo costuma ser usado? Não é só em casos específicos de possibilidade de risco da vida?
Dartiu Xavier - Sim. Todo uso de drogas pode trazer algum risco de vida, mas a internação compulsória é um dispositivo para ser usado quando existe um risco constatado de suicídio. A outra situação é quando existe um quadro mental associado do tipo psicose, seria quando a pessoa tem um julgamento falseado da realidade: se ela acha que está sendo perseguida por alienígenas ou se acredita que pode voar e resolve pular pela janela. Nessas situações de psicose ou um risco de suicídio é quando poderíamos lançar mão de uma internação involuntária.

Houve outros momentos da história em que a internação compulsória foi usada desse modo que está sendo implementado no Rio de Janeiro e prestes a ser em São Paulo?
Foi usada, principalmente, antes da luta antimanicomial. Tanto que existe até aquele filme, O bicho de sete cabeças, com o Rodrigo Santoro, que mostra os abusos que se faziam. No caso era um usuário de maconha que foi internado numa clínica psiquiátrica contra a sua vontade. Isso, hoje, é juridicamente uma coisa muito complicada, de modo geral não é mais aceito. Mas, infelizmente ainda acontece hoje em dia. Volta e meia sou chamado para atender alguém que foi internado compulsoriamente contra a vontade, sem citação de internação.
Quais são os efeitos de ansiolíticos e calmantes injetáveis? Você acredita que essas substâncias que estão sendo usadas nas clínicas do Rio são medicamentos adequados para crianças usuárias de crack?
Eu não sei efetivamente o que está sendo feito nessas clínicas no Rio. O que eu sei é que a gente não tem o aparelho de Estado nem que dê conta das internações voluntárias. Ou seja, você pega uma pessoa que tem uma dependência química associada com psicose ou risco de suicídio e temos todas as indicações médicas e até a anuência do paciente de ser internado – estou falando da internação voluntária –, ainda assim não temos estrutura para atender essas pessoas. O que acontece é que se está recorrendo a um modelo considerado ultrapassado, um modelo carcerário, dos grandes hospícios. Então, mesmo para as internações voluntárias acaba sendo usado um modelo de internação ineficaz. Se não temos estruturas nem para as internações voluntárias, imagine para as compulsórias.

O ansiolítico é um calmante forte?
Sim, ele vai diminuir a ansiedade da pessoa. Você pode usar também antidepressivos que diminuam a vontade da pessoa de usar aquela droga. Mas são paliativos, porque, na verdade, o grande determinante para a pessoa parar de usar a droga ou não, é a força de vontade. Por exemplo, eu quero parar de fumar, então eu posso tomar um calmante para diminuir esse meu desejo absurdo de fumar, mas se eu não tiver a motivação da minha decisão de parar, não haverá calmante que me faça parar de fumar. Ele não age por si só. Daí um dos problemas de tratar alguém que não está convencido de ser tratado.

Você afirma que o número de dependentes de drogas é muito inferior ao número de usuários, que não tem problemas com o consumo de drogas.
Exatamente. Para maconha e para álcool é menos de 10% dos usuários que se tornam dependentes. Para crack, por volta de 20% a 25% que se tornam dependentes, os outros permanecem no padrão de uso recreacional. Nem todo consumo é problemático.

Com esse sistema, então, corre-se o risco de internar usuários que não são dependentes de fato?
É muito provável que isso aconteça. Sobretudo porque existe uma lógica muito perversa da internação compulsória que atribui a situação de miséria e de rua à droga, quando, na realidade, a droga não é a causa daquilo, ela é consequência. Acredito que o trabalho feito nas ruas, nas cracolândias e com crianças de rua deveria ser no sentido de resgate de cidadania, moradia, educação, saúde.

O que você acha do tratamento da dependência sem que a pessoa tenha o desejo de ser tratada? Existe possibilidade de eficiência?
A eficácia é muito baixa. Existem estudos mostrando que nesses modelos de internação compulsória o máximo que se consegue de eficácia é 2%, ou seja, 98% das pessoas que saem da internação recaem depois. Certamente, porque a pessoa não está nem convencida a parar.

O Estado, de modo geral, vem se omitindo há décadas a respeito da situação de jovens moradores de rua em situações de vulnerabilidade. Por que você acha que começaram a agir agora, e desse modo?
Acredito que é por conta de uma diversidade enorme de variáveis. O que tem se falado muito é que é uma medida higienista de tirar as pessoas das ruas e que começou no Rio de Janeiro por causa da proximidade de Copa e Olimpíadas. É uma forma de tirar os miseráveis das ruas. Já vi, também, tentativas de implementação de internação compulsória por uma questão política, necessidade de o governante mostrar que está fazendo alguma coisa pela população, pelos drogados, apesar de ser uma coisa que não funciona pode render votos.

Para inglês ver.
Exatamente, para inglês ver. No caso da Copa e das Olimpíadas, literalmente para ingleses e outros gringos verem.

O tema da internação tem gerado bastante polêmica. Um dos argumentos apresentados aos que se posicionam contra a internação é de que se trata de menores de idade, e o Estado tem a obrigação de fazer-se presente, de cuidar das crianças e adolescentes. O que você acha disso e o que considera que deveria ser uma boa medida por parte do Estado nessas situações?
Acho que o argumento é válido e acho que é verdade que o Estado realmente tem que cuidar dessas crianças. Só que não acho que isso seja cuidar. Cuidar é dar moradia, educação, saúde. Não é colocar a pessoa em um cárcere psiquiátrico, em um manicômio. Porque é isso que vai acontecer: vão ser grandes depósitos de crianças desfavorecidas e que usam drogas.

Muitos dizem que a internação compulsória para essas crianças e jovens mascara um problema maior, o da desigualdade social, da falta de educação, moradia, saúde etc. Porém, os que defendem a internação afirmam que é uma medida para algo emergencial. Você vê alternativas que respondem à emergência que alegam para a situação?
Esses trabalhos das equipes multidisciplinares de rua que já fazem um trabalho, mas que deveriam ser aumentados. O trabalho deve ser na rua. As redes de CAPS [Centro de Atenção Psicossocial] são um bom exemplo e deveriam ser ampliadas.

Como funcionam?
Da seguinte forma: uma equipe multidisciplinar que tem familiaridade exclusiva com o problema das drogas vai fazendo um trabalho muito de formiguinha, porque cada caso é um caso. Eles vão identificar qual é a problemática daquela pessoa, porque a pessoa está na rua, se é por uma questão familiar, se é por uma questão de abandono total, ou seja, cada situação tem que ser vista na sua singularidade justamente para ver como que entra a droga nessa singularidade.
Fizemos um trabalho na rua uma vez com umas adolescentes que usavam drogas e perguntamos o motivo do uso, elas disseram "Olha tio, a gente usa drogas porque para comer a gente precisa se prostituir. A gente é muito pequena, para ter uma relação sexual com um adulto a gente precisa se drogar, senão a gente não aguenta de dor". Quem diria que o problema dessas meninas é a droga? Eu acho que é o último problema dessas meninas.

A necessidade da internação compulsória para crianças e adolescentes é apresentada com base em duas premissas que fundamentariam a não possibilidade de tomarem decisões por si próprios: a de que são menores de idade e a de que sendo dependentes de crack não poderiam pensar com sanidade. O fato de usarem essa última justificativa abre precedente para a internação compulsória de adultos?
Certamente. E essa segunda justificativa cai por terra na hora que pensamos naquele dado que eu falei, dos usuários de crack 75% a 80% são usuários recreacionais: são pessoas que trabalham, são produtivas, que tem família. No meu consultório particular, eu atendo executivos que são usuários recreacionais de crack, você vai dizer que o crack torna a pessoa incapaz de pensar? Não, não se pode atribuir isso ao crack. Poderíamos fazer o mesmo raciocínio com o cigarro. O indivíduo não consegue parar de fumar, está se matando, vai ter um câncer, então ele é considerado incapaz? Bom, ele é capaz de ganhar dinheiro, de ter relações sociais, de tomar uma série de decisões na vida, não dá para atribuir isso ao cigarro.

O que, por exemplo, o secretário municipal de Assistência Social do Rio, Rodrigo Bethlem, fala é que o crack é diferente de qualquer outra droga porque "faz com que a pessoa perca a noção completa da realidade".
Isso não é verdade. Não existe isso. O crack é como a cocaína, ou seja, a pessoa não perde a noção da realidade. A questão é que a compulsão pelo uso é muito intensa.

Fale um pouco sobre as condições a que os doentes mentais internados geralmente são submetidos no Brasil.
É muito complicado. É um sistema que ainda guarda muito da herança do sistema carcerário, o sistema dos manicômios. Por exemplo, um dos hospitais que tem sido citado pela mídia como modelo aqui em São Paulo de possibilidade de tratamento de dependentes é uma estrutura psiquiátrica. Esse hospital, eu não posso dizer o nome por questão de segurança, está sob intervenção do Ministério Público por maus tratos aos pacientes. E é um hospital que é considerado modelo. O que devemos esperar dos outros, que nem são vendidos como modelos? Na verdade, o que é preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como tratamento para dependentes é a internação de curto prazo só para fazer a desintoxicação, cerca de 15 dias, no máximo 30 dias, e em unidades dentro do hospital geral. Por isso que eu montei há 10 anos atrás uma estrutura dentro do hospital geral para esses casos de internação.

Aqui no Brasil são poucos os hospitais que tem essa unidade?
Pouquíssimos. Em geral, aqui no Brasil se usa o modelo manicomial ainda.

Como funciona o modelo manicomial?
É o modelo onde o indivíduo fica internado meses ou anos, não recebe atendimento multidisciplinar, não vai ser submetido à psicoterapia, recebe algum tipo de medicação – nem sempre é a medicação adequada para ele. Eu fiz um estudo há cinco anos atrás com 300 dependentes internados em hospitais psiquiátricos. Para se ter uma ideia, 90% deles, embora tivessem supostamente sendo atendidos por médicos psiquiatras, não tinha tido seu diagnóstico psiquiátrico identificado! Eles tinham depressão, fobia social, enfim, isso não foi identificado. Ou seja: é um sistema de depósito, não é um sistema de tratamento. Por isso que eu chamo de sistema carcerário, é de isolamento social, não de tratamento.

Você afirmou que "a dependência de drogas não se resolve por decreto. As medidas totalitárias promovem um alívio passageiro, como um 'barato' que entorpece a realidade". Você acha que existe a ilusão por parte dos idealizadores desse sistema de que medidas como a internação compulsória resolvam o problema ou você acredita que, de fato, a intenção é maquiar a realidade?
Eu conheço gente bem intencionada que acredita nisso. Mas é claro que pessoas mal intencionadas também estão envolvidas nisso. Por exemplo, eu estava conversando com o Dráuzio Varella, que é a favor da internação compulsória. Ele dava os prós e eu os contras, e foi interessante porque ele é uma pessoa muito bem intencionada. Não sei se ele mudou de ideia depois que conversamos, mas acredito que tenha relativizado uma série de coisas que ele pensava. O Dráuzio é uma pessoa que eu considero que está autenticamente defendendo essa ideia, com embasamento coerente, só que não vai funcionar. Foi o que eu falei para ele.

Em São Paulo, a gestão Kassab pretende permitir que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) leve à força pessoas que não aceitarem serem retiradas da rua. Pretende, também, implementar um sistema de "padrinhos", que seriam profissionais nomeados nas centrais de triagem para acompanhar um paciente durante a sua internação compulsória, até estar supostamente apto para uma "reintegração social". O que você acha desse sistema?
Esse sistema vai furar, porque é uma ingerência na vida privada das pessoas, é contra o direito de ir e vir, contra os direitos humanos. E, na verdade, o que vai acontecer é que isso vai funcionar – funcionar entre aspas porque não será eficaz – nas populações carentes. Porque quem é classe média e alta e tiver fumando crack na rua, vai ser pego mas o papai vai colocar ele numa clínica chique, vai ficar uma semana, e vai para casa depois. Então é um sistema bastante questionável do ponto de vista ético, porque vai ser aplicado nas populações "indesejáveis". Além disso, grande parte das pessoas que eu vejo defenderem a internação compulsória são donos de hospitais psiquiátricos que vão se beneficiar diretamente com isso.
Você concorda com esse discurso que tanto aparece na mídia de que o crack é mesmo um dos maiores problemas do Brasil?
Não, isso é uma fabricação. Não existe essa epidemia de crack de que tanto se fala. Não estou dizendo que a dependência de crack não é uma coisa grave, é gravíssima. No meu serviço eu atendo 600 pessoas por mês, metade ou 40% é dependente de crack. Então, o problema existe e o problema é sério. Só que ele não aumentou. Eu atendo essa frequência de dependentes há 15 anos. O que se criou é a ideia falsa de uma epidemia de crack quando o grande problema da saúde pública do Brasil dentro da área de drogas ainda é o álcool, sem dúvidas. Eu não sei qual foi o mote disso. Os estudos que o próprio Ministério da Saúde e a SENAD [Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas] divulgam não comprovam a existência de uma epidemia de crack.

Por que, apesar desse discurso demonizador do crack, você acha que as pessoas continuam buscando o crack? Quais são os efeitos positivos que faz com que a demanda persista?
Se a gente for ver a heroína na Europa e nos Estados Unidos – a heroína não é uma droga muito discutida comparada ao crack – conseguimos fazer prevenção, tratamento, mas sempre aparecem novos usuários. Tem pessoas que tem esse comportamento de risco, em geral são pessoas impulsivas, mas é algo turbinado por uma situação de exclusão social.

Qual a importância da redução de danos?
A redução de danos é um conjunto de estratégias que a gente usa para aquelas pessoas que não podem parar de usar drogas, ou porque não querem ou porque não conseguem. Normalmente, o que se fazia antigamente era 'olha, não deu certo o tratamento, o indivíduo não ficou abstinente, então sinto muito, vai continuar dependente'. A redução de danos surgiu justamente para essas pessoas que não conseguiram se tratar ou que não aceitaram o tratamento, mas que são formas e estratégias para diminuir os riscos relacionados ao consumo. Então por exemplo, teve um estudo sobre redução de danos publicado há anos atrás fora do Brasil, a respeito de um grupo de usuários de crack que não conseguia se tratar de forma nenhuma. Mas começaram a relatar que quando eles usavam maconha, conseguiam segurar e não usar crack. Eu acompanhei esse grupo de pessoas por um ano e para a nossa surpresa, 68% deles abandonou o crack através do uso de maconha. Depois de três meses tinham abandonado o crack. Até brinquei na época que as pessoas falam que a maconha é porta de entrada para outras drogas, mas ela pode ser porta de saída também.
Gabriela Moncau é jornalista.

Fonte: Caros Amigos

24 novembro, 2012

A carta abaixo foi escrita pelo Prof. Dr. Elisaldo Carlini, um dos mais importantes cientistas e pesquisadores brasileiros. Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo (1957) e mestrado em Psicofarmacologia - Yale University (1962). Atualmente é da Universidade Federal de São Paulo, membro do Expert Advisory Panel on Drug Dependence and Alcohol Problems (7º Mandato) - World Health Organization (WHO), ex-membro do International Narcotic Control Board (INCB), eleito pelo Conselho Econômico Social das Nações Unidas, parecerista do Phytotherapy Research e Journal of Ethnopharmacology, coordenador da Câmara de Assessoramento Técnico Científico da Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD). Tem experiência na área de Farmacologia, com ênfase em Neuropsicofarmacologia, atuando principalmente nos seguintes temas: drogas, levantamentos epidemiológicos, plantas medicinais, psicofarmacovigilância. Orientador de Mestrado e Doutorado do Departamento de Psicobiologia. Atualmente alocado no Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP.

Na carta ele comenta sobre a reportagem da revista Veja sobre a maconha, publicada há algumas semanas.
Não se trata de ser a favor ou contra a liberação da maconha, seja para fins médicos ou recreacionais, e sim de ser a favor de informações corretas e atualizadas, e de ser contra a divulgação de preconceitos sem base científica alguma.

17 julho, 2012

Plantas que Curam?

Num episódio da série policial Law & Order: SVU, os detetives precisam lidar comuma testemunha chave viciada em heroína, que precisa chegar “limpa” ao dia do julgamento. Resolvem apelar para uma substância chamada ibogaína,fabricada a partir da raiz de um arbusto africano. O efeito parece mágico: uma única aplicação da substância liberta o personagem do vício em heroína e o manda direto para um final Feliz. A substância mostrada na série é real e seus efeitos, embora controversos, são tão impressionantes que parecem ficção. Relatos de pessoas que utilizaram a ibogaína afirmam que basta uma aplicação da substância para eliminar a “fissura”, a vontade incontrolável de usar droga. Utilizada há milênios por curandeiros da África Central para tratar doenças do corpo e do espírito, a ibogaína vem sendo pesquisada desde 1962 em tratamentos experimentais para a dependência química, especialmente em heroína. No Brasil, é usada em terapias alternativas para recuperar viciados em crack. A psicóloga Cleuza Canan,que trabalha há 31 anos com tratamento de dependência química, em Curitiba (PR), conta que começou a utilizar a ibogaína há dez anos, com um usuário de crack, que, para sua surpresa, pareceu se recuperar totalmente após uma sessão com a substância. “Eu o observei durante três anos, e ele só evoluiu. Então, resolvi dar alta a ele. Foi a primeira vez que dei alta a um dependente químico”,conta. Desde então, aplicou o tratamento em 180 pacientes, que,segundo ela, tiveram um índice de recuperação de 85%.Para evitar recaídas no uso do crack, a psicóloga aprendeu a combinar a sessão de ibogaína com outras duas etapas, que incluem uma preparação e um pós-tratamento. O acompanhamento é necessário porque, se o paciente não mudar seus hábitos e continuar frequentando os mesmos ambientes, ele corre o risco de, mesmo sem a fssura, voltar para as drogas — e recomeçar o ciclo da dependência. Esta metodologia, segundo ela, foi apresentada numa conferência sobre tratamentos à base de ibogaína, realizada no ano passado, em Barcelona, onde foi considerada uma das mais eficazes. Segundo o gastroenterologista Bruno Daniel Rasmussen Chaves, um dos principais especialistas brasileiros no tema, a ibogaína age tanto na química do cérebro como na psicologia do dependente. Por um lado, a droga estimula a produção do hormônio GDNF, que promove a regeneração de áreas do cérebro associadas à dependência. Por outro, a ibogaína lança o paciente num transe de 48 horas, uma espécie de “sonhar acordado” em que o paciente revê sua vida e os motivos que o levaram à dependência, como numa sessão de psicoterapia intensiva. O uso da ibogaína é proibido em países como EUA, Di-namarca e Bélgica e liberado em outros, como México e Espanha. No Brasil, não há regulamentação. A literatura médica registra 12 mortes associadas ao uso da substância, todas fora de ambiente hospitalar. A psicóloga Canan afirma não ter observado efeitos colaterais associados ao uso de ibogaína em seu tratamento, mas faltam estudos conclusivos a respeito. A iboga é uma das chamadas “plantas de poder”, vegetais com efeitos psicoativos, usados por povos tradicionais para tratar enfermidades físicas e emocionais. Alguns cientistas consideram estas plantas drogas alucinógenas, mas outros as veem como instrumentos para lidar com problemas como dependência química e depressão. Outra destas plantas é a ayahuasca (também chamada de Daime), bebida feita a partir de duas plantas amazônicas, cujo uso em rituais religiosos é reconhecido pelo Conselho Nacional Antidrogas(Conad). Um destes grupos religiosos, a Associação Beneficente Luz de Salomão (Ablusa), chegou a usar a ayahuasca para tratar de-pendentes químicos das ruas da Cracolândia paulistana, conforme o livro "A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos (Ed. Mercado de Letras / FAPESP,2004)", mas encerrou recentemente suas atividades na região. Em 2005, um estudo coordenado pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, que comparou 40 adolescentes da religião ayahuasqueira União do Vegetal(UDV) com um grupo da mesma idade que nunca havia tomado o chá, concluiu que o primeiro grupo era menos inclinado a fazer uso de álcool ou drogas ilícitas. Tudo isso, contudo, ainda precisa ser visto com cautela, já que faltam estudos científcos sobre o tema. “O uso tanto de ayahuasca como de ibogaína para tratamentos de dependência é algo que está sendo investigado, mas ainda é muito cedo para se falar em usá-las em políticas de saúde pública”, afirma Dartiu. Fonte : Revista do Parlamento, nº 1 "Os Caminhos da Cracolândia" Fausto Salvadori Filho

Aprovado o 1º Estudo Observacional sobre o uso de Ibogaína no tratamento da dependência química

Este projeto visa elaborar um estudo científico sobre um tratamento realizado com drogadictos recentemente no Brasil, através do uso do poderoso ecodélico Ibogaína (a substância pura, sintetizada num laboratório canadense, e não o extrato, que contém outras moléculas e pode ser considerado “impuro” e potencialmente perigoso) combinado com psicoterapia. Mais de cem pacientes foram tratados por um médico certificado e autorizado, em parceria com uma psicóloga. A Ibogaína é um alcalóide encontrado em plantas da floresta equatorial da África ocidental. Ela tem sido usada nas tradições medicinais e religiosas da região por séculos e foi purificada pela primeira vez por químicos franceses no início do século passado (Fernandez 1982 and Goutarel et al. 1993). Os efeitos anti-viciantes da Ibogaína foram descobertos serendiptuosamente por um grupo de jovens usuários de drogas que experimentavam com uma variedade de substâncias psicoativas no início dos anos 60. Sete destes usuários eram viciados em heroína, e faziam uso simultâneo de cocaína e anfetaminas. Nenhum destes depedentes químicos tinha intenção de interromper seu uso de drogas e a Ibogaína foi utilizada por eles com a intenção de se ter mais um “barato”. Ainda assim, uma única administração do alcalóide eliminou sinais de abstinência em todos os sete dependentes de heroína e interrompeu o desejo de se continuar fazendo uso da droga em cinco deles por aproximadamente seis meses após a experiência. Nos anos 80, o interesse nos efeitos anti-viciantes da Ibogaína foi reforçado por Howard S. Lotsof e Norma E. Alexander, precipitando uma série de experimentos clínicos ao longo dos anos 80 e 90 para se avaliar os efeitos experimentados pelos sete adictos dos anos 60 (dos quais Lotsof fazia parte). Com base na rápida e dramática resposta do uso deste ecodélico na eliminação da crise de abstinência e do comportamento obssessivo do usuário (“fissura”), ao mesmo tempo em que denota a psicopatologia do paciente ao dar início a um processo de catarse (Lotsof et al. 1996); e, aliado ainda ao fato de que a terapia com Ibogaína é mais facilmente aceita pelos usuários de drogas, existe um panorama otimista para uma redução significativa no uso de drogas pesadas se a Ibogaína estiver disponível como uma modalidade de tratamento. No Brasil, comprimidos farmacêuticos com Ibogaína purificada estão sendo usados no tratamento de dependentes, que são acompanhados por psicoterapeutas antes e após a sessão farmacológica conduzida por médico certificado em hospital autorizado. Os resultados preliminares de cerca de 200 sessões de ibogaína com mais de 100 pacientes são animadores e demasiadamente promissores para a condição de milhares de pessoas no país. Este projeto está sendo realizado em colaboração com o médico responsável pelo tratamento farmacológico de dependentes (a maioria dos quais de crack) com ibogaína acompanhado de psicoterapia. Será feita cuidadosa análise estatística dos resultados disponíveis até o momento, bem como realização de entrevistas semi-estruturadas com cerca de 30 dos mais de 100 pacientes atendidos, por uma psicóloga especialista na área. Ainda assim, é importante ressaltar os riscos de uma abordagem unidirecional que se apoie na medicação apenas. Avaliação preliminar dos dados, bem como a experiência dos terapeutas envolvidos aponta numa direção clara: o apoio familiar e o desejo verdadeiro, profundo e voluntário do paciente de se tratar são cruciais para que um resultado positivo e duradouro seja alcançado. Projeto aprovado no Comitê de Ética da UNIFESP de acordo com o parecer 51434. Os resultados deste trabalho podem abrir as portas para que este tratamento seja extendido a outros pacientes, e para guiar uma política e tratamento de dependência de drogas mais eficientes. No entanto, a academia em geral ainda mantém uma posição de ceticismo quanto à eficácia deste tratamento devido à falta de estudos científicos a este respeito. É por isso que este projeto é tão importante. Fonte : Plantando Consciência

05 fevereiro, 2012

Drogas legais e ilegais matam 8 mil pessoas por ano no país

fonte : O Estado de São Paulo

Levantamento em sistema do Datasus mostra que álcool, fumo, psicotrópicos e cocaína tiraram a vida de 40 mil brasileiros entre os anos de 2006 e 2010

O uso de drogas matou 40.692 pessoas no País entre 2006 e 2010, uma média de 8 mil óbitos por ano. Estudo sobre mortes por drogas legais ou ilegais, registradas no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostra que o álcool é o campeão na mortandade.

O levantamento feito na base de dados do Datasus, obtido pelo Estado, informa que a bebida tirou a vida de 34.573 pessoas – 84,9% dos casos informados por médicos em formulários que avisam o governo federal sobre a causa da morte nesse grupo da população. Em segundo lugar aparece o fumo, com 4.625 mortos (11,3%). A cocaína matou pelo menos 354 pessoas no período.

Feita pelo Observatório do Crack, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), a pesquisa aponta que, na comparação por gênero, há mais registros de morte de homens por álcool e fumo. Em cinco anos, 31.118 homens perderam a vida por causa da bebida. Outros 3.250 morreram em casos associados diretamente ao cigarro.

Na comparação da devastação por Estado, os mineiros lideram as mortes por álcool, com 0,82 morte para cada 100 mil habitantes, seguidos pelos cearenses, com 0,77 morte/100 mil pessoas. Depois aparecem os sergipanos, com 0,73/100 mil. São Paulo registra 0,53 morte para cada 100 mil habitantes.

O levantamento da CNM revela que em São Paulo houve 1.120 vítimas do uso abusivo do álcool em 2006. Em 2010, porém, o sistema registra uma queda de 14% nas informações. O SIM alcança 979 pessoas mortas por consumo de bebida. O Estado que menos apresenta perda de vidas por álcool é o Amapá: quatro em 2006, dez em 2009 e cinco em 2010.

Quando a causa do óbito é o fumo, o campeão de mortes de usuários é o Rio Grande do Sul. A taxa de óbitos pelo tabaco chega a 0,36 para cada 100 mil. A seguir aparecem Piauí e Rio Grande do Norte, ambos com 0,33/100 mil.

A duas principais drogas legalizadas no País, álcool e fumo, juntas, segundo o estudo, mataram 39.198 pessoas em cinco anos. – ou 96,2% do total. Os técnicos da CNM alertam, no entanto, que os dados de 2010 ainda são preliminares.

A devastação pode ser maior. O preenchimento das fichas para informação não é simples e o sistema tem casos de mortes classificadas como óbito por substâncias psicoativas (480). São os casos nos quais é informado no formulário um código que junta mais de uma droga associada à morte.

A Declaração de Óbito (DO) é composta por 9 blocos e 62 variáveis que apontam causa e local da morte. O preenchimento é de responsabilidade do médico, conforme estabelecido pelos Conselhos Federal e Estadual de Medicina, diz o estudo.

Para o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, há uma urgente necessidade de combater o problema das drogas nos municípios. “E não se está fazendo isso. O problema estoura é nos municípios”, afirma.

Ziulkoski diz que a média de cerca de 8 mil óbitos, encontrada no SIM, é um número subestimado. “Não há uma cultura de informação dos médicos”, acrescenta. Para ele, “o País precisa ver que a política de prevenção do uso de drogas é precária”. O estudo abrange 2 mil municípios. “A situação é alarmante.”

Para o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Mauro Aranha, o problema é bem maior. “Há aí uma clara subnotificação das mortes”, afirma. Segundo ele, o governo precisa melhorar a logística nos municípios para que os médicos possam informar os dados reais. “Isso é fundamental para que se possa trabalhar políticas públicas sobre drogas”, defende Aranha.

Pesquisando nas bases de dados do Datasus, técnicos do CNM elaboraram também uma lista com os 50 municípios com maiores taxas de mortalidade por drogas. No caso da mapa das mortes por álcool, Minas Gerais tem 23 municípios, Paraná, 9, e São Paulo, 5.

Quando a conta do dano causado pelo cigarro é feita na lista de 50 municípios, o Rio Grande do Sul se destaca com 17, seguido de Minas, com 7, e Santa Catarina com 6. São Paulo tem 2 municípios na lista dos 50 com maior incidência de mortes por fumo.

Em nota, o Ministério da Saúde explica que os números de 2010, divulgados pelo estudo, podem sofrer ajustes. De acordo com a nota, entre 2006 e 2009 foram notificados 31.951 óbitos com causa básica de consumo de álcool, fumo e substâncias psicoativas (como cocaína canabinoides e alucinógenos). Os dados do SIM são fornecidos pelas secretarias estaduais e municipais de Saúde e gerenciados pelo ministério.

Os óbitos de 2011 só serão conhecidos no final do ano. “O Ministério da Saúde vem desenvolvendo um conjunto de ações para aperfeiçoar o registro de óbitos no País, assim como a qualidade das informações. Uma das medidas foi a intensificação de registros de óbitos por causas mal definidas (parada cardíaca, por exemplo), que caiu de 15% (2004) para 7,8% (2011)”, diz a nota. Outra medida adotada foi a criação, em 2006, da rede nacional do Sistema de Verificação de Óbitos, utilizado para a identificação das causas de mortes naturais. “Com isso”, argumenta o governo, “houve ampliação da notificação no País, por meio do SIM. O sistema capta atualmente 94% dos óbitos ocorridos no território nacional. Esse porcentual está acima do padrão internacional (90%)”.

24 janeiro, 2012

Combatemos o vício, não o viciado

Fonte : Revista Época - MARCELO MOURA
O responsável pela política antidrogas mais elogiada do mundo critica a internação compulsória adotada no Rio de Janeiro e a ação da polícia em São Paulo

João Goulão, chefe das agências portuguesa e europeia de combate às drogas, foi a São Paulo na semana passada divulgar o World Bike Tour. Para o português de 56 anos, seu trabalho pode ser tão amplo que chega à promoção de um passeio ciclístico. A ideia de que o esporte pode ajudar a manter as pessoas longe do vício levou à cidade da Cracolândia o responsável pelo plano antidrogas mais elogiado do mundo. Em 2001, Portugal descriminalizou o consumo de drogas e criou uma rede de assistência aos viciados que inclui incentivos fiscais para empresas que queiram contratá-los. Com iniciativas ousadas, o país acabou com suas cracolândias e passou a registrar os menores índices de consumo de drogas entre os jovens na Europa.

ÉPOCA – O consumo de drogas em São Paulo é tão grave que há 15 anos uma área no centro da cidade é conhecida pelo nome de Cracolândia. Nunca trouxeram o senhor para visitá-la antes?
João Goulão – Não, agora vou aproveitar a vinda para o passeio ciclístico para conhecer. Estive no Rio de Janeiro em novembro. Vi como as forças de segurança tomaram um espaço e, em seguida, resumiram-se a dar apoio aos serviços sociais, sem uma postura agressiva. Parece a atitude adequada.

ÉPOCA – Lisboa teve um local de consumo como São Paulo?
Goulão – Teve. Ficava no Casal Ventoso, um bairro litorâneo habitado por trabalhadores portuários. Quando Portugal perdeu suas colônias, na década de 1970, a atividade naval decaiu e houve muito desemprego naquele bairro. Aquelas pessoas conheciam marinheiros e passaram a se dedicar ao contrabando, primeiro de produtos de consumo e depois de drogas. O bairro de gente pobre foi colonizado por bandidos e tornou-se o maior supermercado de drogas da Europa, visitado diariamente por mais de 5 mil pessoas.

ÉPOCA – No início de janeiro, a Polícia Militar de São Paulo entrou na Cracolândia sem agentes sociais, com armas e balas de borracha. Como foi o combate às drogas no Casal Ventoso?
Goulão – Nossa abordagem foi de assistência social. A polícia entrou para acompanhar os assistentes. Começamos com uma política de troca de seringas usadas por novas, o que foi importantíssimo para controlar o crescimento dos casos de aids ligados a drogas injetáveis. Depois de cinco anos de trabalho, ganhamos a confiança dos viciados e conseguimos aproximá-los dos serviços de saúde. Penso que não teria sido possível se tivesse havido a entrada de forças policiais e o envio para tratamento quase compulsório.

ÉPOCA – O governo federal anunciou o destino de verbas para clínicas de internação compulsória, e o Rio de Janeiro adotou esse procedimento há poucos meses. É uma iniciativa necessária para tratar pessoas em estágio avançado de vício?
Goulão – Não acredito no sucesso da internação compulsória. O viciado vai à força para um lugar fora da realidade, fisicamente impedido de consumir drogas. Como ele vai se comportar ao sair? Para deixar o vício, a pessoa precisa reformatar seus hábitos. Não é só retirar uma substância, é mudar o estilo de vida. A internação voluntária é um processo demorado, mas considero mais eficaz.

ÉPOCA – Como esperar força de vontade de alguém que, por causa do vício, perdeu qualquer tipo de motivação?
Goulão – De fato, estamos lidando com seres que se encontram numa condição quase animalesca. É preciso resgatar a dignidade, noções de higiene, o orgulho por pequenas coisas. Só depois disso, motivar a internação voluntária. É difícil, mas entendo que assim funciona a intervenção.

ÉPOCA – Áreas dominadas por viciados despertam repulsa na sociedade. Como política de tratamento, é melhor dispersar os viciados pela cidade ou aproveitar a reunião deles?
Goulão – Quando tivemos nossa cracolândia, nós não a dispersamos. Cinco anos depois de entrar com o serviço médico e social, quando o Casal Ventoso já não era um polo de consumo, fizemos uma operação de reurbanização com remoção de casas e mudança dos moradores.

ÉPOCA – O crack é uma droga diferente das outras?
Goulão – O crack tem um poder viciante fortíssimo, e não há uma substância química que o substitua num tratamento terapêutico. A abordagem é mais complexa e demorada que a da heroína, principal droga em Portugal. O trabalho de educação, redução de danos e tratamento é mais difícil.

ÉPOCA – Como são as campanhas antidrogas de Portugal?
Goulão – Desistimos de fazer propagandas na televisão com mensagens para o grande público. Elas custavam caro e traziam pouco resultado. Hoje, mapeamos grupos, como jovens que deixaram a escola e filhos de viciados. São trabalhos dirigidos, feitos nos lugares onde está o público potencial.

ÉPOCA – Como o departamento antidrogas aborda os viciados?
Goulão – Os órgãos de saúde e assistência social precisam conhecer de perto que tipo de crack está nas ruas. Saber inclusive quanto as drogas à venda estão adulteradas, para então difundir, entre os usuários, a partir de qual dose consumida há risco de morte

ÉPOCA – Os órgãos de saúde devem orientar os usuários sobre quanta droga eles podem consumir?
Goulão – Exatamente. A mensagem deve ser: “Não consuma drogas, mas, se consumir, tome certos cuidados”. Não consuma sozinho, porque, se houver um pequeno acidente, ninguém vai poder ajudar. Passamos mensagens que ajudam a pessoa a correr menos riscos.

ÉPOCA – Orientar o consumo de drogas não é uma postura que beira o incentivo?
Goulão – Em primeiro lugar, nosso objetivo é salvar vidas. Em segundo lugar, ganhar a confiança das pessoas para orientá-las a deixar o vício. Ainda estamos muito formatados à ideia de que consumir drogas é pecado. Não conseguimos encarar o dependente de drogas como fazemos com um diabético, que é dependente de insulina. Só faremos progressos significativos quando abandonarmos essa carga ideológica.

ÉPOCA – Como Portugal encara os viciados?
Goulão – Encaramos o dependente como fazemos com um diabético. Damos a ele oportunidade de tratamento sem custo, com privacidade e sem condenação. Na lei que adotamos há dez anos, consumir drogas não é mais crime. É como dirigir sem cinto de segurança: o infrator não vai para a cadeia, não é fichado por isso.

ÉPOCA – Como uma sociedade conservadora como a portuguesa aceitou descriminalizar o consumo de drogas?
Goulão – A explicação está na própria origem do consumo em Portugal. O uso de drogas fez parte da explosão de liberdade que o país viveu com o fim da ditadura, em 1974. Começou com maconha, e um dia o vendedor de maconha ofereceu cocaína, heroína... De repente os viciados já representavam 1% da população, todo mundo tinha algum na família. Então foi fácil para a sociedade perceber que o dependente era uma pessoa honesta precisando de ajuda. E, ao ser mandada para a cadeia, a pessoa sairia pior do que entrou. A descriminalização das drogas foi uma decisão tomada de baixo para cima, e não determinada pelos políticos.

ÉPOCA – A ausência de punição não incentiva mais pessoas a experimentar drogas?
Goulão – Isso não tem acontecido. Desde a descriminalização, a experimentação de drogas entre os mais jovens caiu. Não sei dizer por quê. Talvez porque os jovens de uma forma geral gostem de desafiar a autoridade e, hoje, consumir drogas é menos desafiante. Em compensação, temos mais jovens se embebedando. Se o apelo da droga não está mais no desafio à lei, a bebida alcoólica é mais barata e disponível.

ÉPOCA – Um problema entre os viciados é voltar à vida social. Quais são as soluções de Portugal?
Goulão – O governo abriu linhas de crédito para pequenas empresas abertas por toxicodependentes, assim como incentivos fiscais a empresas que contratem essas pessoas.

ÉPOCA – Num momento de crise econômica na Europa, favorecer o emprego de viciados parece uma questão polêmica.
Goulão – É sim. Algumas pessoas dizem: “Será que tenho de usar drogas para conseguir trabalho?”. Isso aumenta o estigma dos dependentes. É muito complicado lutar por um programa de discriminação positiva. Ultimamente, tenho ficado bem quieto, sem pedir nada. Apenas peço que não cortem muito o orçamento do departamento antidrogas português, para não perdermos as conquistas atuais.

ÉPOCA – Quanto o departamento antidrogas gasta por ano?
Goulão – O orçamento anual do instituto é de € 75 milhões, 80% deles dedicados a tratamento. De maneiras mais ou menos intensivas, ele atende 45 mil pessoas.

ÉPOCA – Quanto Portugal economiza ao devolver viciados em drogas à vida produtiva?
Goulão – Trabalhos acadêmicos estimam que cada euro investido na recuperação de viciados leva à economia de e 20. Esse valor inclui a produtividade da pessoa e a economia por não ter de tratar doenças relacionadas ao vício, como a aids.

ÉPOCA – O senhor considera o modelo português replicável em países maiores, como o Brasil e os Estados Unidos?
Goulão – Acredito que alguns aspectos sejam válidos em qualquer realidade. Mesmo com uma linha de criminalização do consumo, penso que um olhar mais próximo das pessoas é válido. Em Portugal, combatemos o vício, não o viciado.